Cravado de fogo

Um fogo cravado e revolto nas íntimas palavras que tenho em meu nome…
Nisto, estou de corpo presente e em registo gravado na terra nascido, baptizado, público, ao alcance de ver.
Do que trouxe e do que levo nada fez falta senão a alguns…ficará portanto o secreto, no universo incolor das minhas ausências.
Deste nome que acha o meu corpo finito e lembrado, ficará o murmúrio que nas horas do tempo morrerá em silêncio.
Sou talvez o que tinha de ser para existir fora de mim.
Tantas vezes um fogo cravado e revolto nas íntimas palavras que tenho em meu nome, gritou a razão das cinzas do povo onde nasci.
Assim a correr para o cerco onde me findo…não levo nada.
O que deixo?
A substância intacta no chão dos mundos, que abordei com os meus dedos para transformar matéria bruta em transpiração.
Deixo o toque, sem herança, sem filhos, sem fortuna, que a luta é o espólio dos deserdados.
E os meus sonhos?
Que é feito do cosmos e das noites de lua que cresciam comigo a adivinhar os futuros…?
Era o eu inventor, o genérico, o homem dos sete instrumentos, arqueólogo, saltimbanco…palhaço de deus numa súplica de aplauso.
Queria ser tanto, entre o tudo e o nada, que acordado do sono ficou só o meu nome.
O meu nome, são 37 anos de histórias que conto de mim para mim, com finais inventados, cinzeiros solitários, bicas de água, sirenes de fábricas, relógios de ponto e abraços da malta que me fez camarada.
Evaporo para fora de mim…segundos;
Leve, vazio, cristalino como água fresca, que livre cascata em charco…
E venta nos pinheiros e nos carvalhos secretos pelo breu que se manta pelos campos na serena brisa nocturna…
Nos corgos levita o átomo que pinga num chá dançante sob o coaxar das rãs…
È o mundo dos silêncios que aventa a mansidão e olvida o burburinho que troa na boca dos homens.
Aqui a eternidade é uma rua comprida que se encaminha na escuridão e acaba em horizontes a meio metro do centímetro onde já não é a luz a candeia dos meus passos.
Estalam traços nos meus pés de caruma em mutação, transpiram pelo ar, grilos, cigarras e tons que se erguem em sinfonia a consagrar a paz do cosmos.
E cheira…cheira a terra, cheira a rio, a útero, cheira à exultação do mundo a encantar-me de magias que me lembram o amor…
Tenho de voltar a mim, à cidade e ás horas que sabem meu nome.
Cravado de fogo quero saber a força e a causa...
Nunca me deu para isto dos operários…dos tintos e das pataniscas ao final da tarde, dos tascos a abarrotar de suor proletário, de corpos luxados dentro de fatos-macacos…mas tenho de ser assim, lutar para ser assim, acordar de madrugada, provar da dor e da fome que escurece os braços dos homens de um fumo perfumado de diesel, tenho de vestir como eles, já que o fogo cravado e revolto nas intimas palavras que tenho em meu nome…
È herança de um orgulho…
Orgulho da classe que me pariu, orgulho da classe que me alimenta, orgulho da classe onde me visto… todas as manhãs de fato-macaco

Submited by

Miércoles, Febrero 24, 2010 - 00:40

Poesia :

Sin votos aún

Lapis-Lazuli

Imagen de Lapis-Lazuli
Desconectado
Título: Membro
Last seen: Hace 11 años 44 semanas
Integró: 01/12/2010
Posts:
Points: 1178

Comentarios

Imagen de rainbowsky

Re: Cravado de fogo

Cravado de fogo e de cheio de alma!
Parabéns Lapis-Lazuli!

rainbowsky

Imagen de MarneDulinski

Re: Cravado de fogo

LINDO E MAIS SUAVE SEU POEMA, QUE MUITO GOSTEI!
Meus parabéns,
Marne

Add comment

Inicie sesión para enviar comentarios

other contents of Lapis-Lazuli

Tema Título Respuestas Lecturas Último envíoordenar por icono Idioma
Poesia/Aforismo Adeus 6 992 03/04/2010 - 14:01 Portuguese
Poesia/Amor Mesmo que o amor morrer 7 1.484 03/03/2010 - 12:19 Portuguese
Poesia/Intervención Prémio Nobel 4 941 02/28/2010 - 21:55 Portuguese
Poesia/Meditación Por todas as manhãs nascidas 2 934 02/28/2010 - 03:16 Portuguese
Poesia/Meditación Rosa de Istambul 2 1.138 02/27/2010 - 04:22 Portuguese
Poesia/Dedicada Até cair 2 1.171 02/25/2010 - 03:18 Portuguese
Poesia/Intervención Cravado de fogo 2 1.262 02/25/2010 - 03:15 Portuguese
Poesia/Aforismo Afinidades 3 1.224 02/23/2010 - 21:43 Portuguese
Poesia/General Tens um granda par de mamas 6 1.894 02/23/2010 - 20:39 Portuguese
Poesia/Aforismo O principio do esquecimento 2 1.113 02/23/2010 - 14:32 Portuguese
Poesia/Intervención Para no fim desembocar num sopro 3 1.037 02/21/2010 - 19:04 Portuguese
Poesia/Intervención Partitura perpétua 1 742 02/21/2010 - 02:36 Portuguese
Poesia/Amor O outro lado do mundo 2 1.398 02/18/2010 - 02:52 Portuguese
Poesia/Aforismo Sombras chinesas 2 1.474 02/17/2010 - 20:03 Portuguese
Poesia/Intervención "Memória das minhas putas tristes" 3 1.812 02/15/2010 - 12:23 Portuguese
Poesia/General De crua voz 5 1.242 02/15/2010 - 03:15 Portuguese
Poesia/Dedicada Aquele abraço 4 1.977 02/14/2010 - 01:51 Portuguese
Poesia/Dedicada Das tuas lágrimas me fiz rio 4 689 02/12/2010 - 22:57 Portuguese
Poesia/Aforismo O cancro que tinha um homem 3 1.433 02/12/2010 - 04:34 Portuguese
Poesia/Intervención Amor assassino 3 1.194 02/12/2010 - 01:07 Portuguese
Poesia/Pasión Missa de corpo presente 2 1.370 02/11/2010 - 03:45 Portuguese
Poesia/Dedicada Vagas moribundas 3 1.196 02/09/2010 - 18:32 Portuguese
Poesia/Amor Independência 1 864 02/08/2010 - 03:07 Portuguese
Poesia/General Corrente alterna 3 1.099 02/08/2010 - 00:30 Portuguese
Poesia/Amor Se voltares 4 1.062 02/07/2010 - 19:18 Portuguese