As Mil Idades

Gritei!... – suponho – quando nasci…
Agarrado ao esmero de minha mãe, absorvi a luz e as sombras. Tacteei as formas, os volumes e os tamanhos; Agucei os sentidos dos odores e dos paladares. Assisti ao paulatino mingar do mundo e ao crescendo do seu alcance, garantido pela vivacidade da galopante consciência.

Gritei!... – quase o posso garantir – quando ganhei vontade e interesse.
Montado no cavalinho de pau, corri os jogos de destreza e de experiência. Toquei a realidade pelas mãos do imaterial; Poli os saberes da cor e da dimensão; Enxerguei as coisas com mais profundidade, subsidiado pela gula da curiosidade.

Gritei!... – recordo – quando começou a minha iniciação.
De sacola às costas, fui lançado pelo mundo das letras e dos números. Acolhi os subtis encantos da comunicação; Rasguei as cortinas dos mitos e dos medos; Olhei o mundo com mais régua e compasso, estacado pela exigência da racionalidade.

Gritei!... – lembro-me – quando entrei nos portões da herdade da paixão.
Indumentado da fantasia de capa e espada, desbaratei as terras enigmáticas do romantismo e do amor. Abracei o dorso sonhador do ideal; sofri com prazer a saudade; Observei o mundo com o sentimento e a sensualidade de um beijo, ancorado no porto emocional do coração.

Gritei!... – evoco-o a cada instante – quando carreguei a minha encomenda no cais da responsabilidade.
Aceitei a farda e a alfaia entre sorrisos: estava admitido. Admitido ao serviço, admitido à normalidade social. Drenei os oceanos de cristal das loucuras e aventuras dos tempos de alforria; criei um aterro mental sanitário, para os despojos da liça. Encurtei as vistas do mundo, revestido das insígnias, das regras e do contrato das vicissitudes da profissão.

Gritei! Gritei!... – embargado de alegria e de cuidado – quando sublimei a minha existência na sua multiplicação em nova vida.
Apetrechei-me de roca e de berço, nas mãos trémulas. Despistei as rotinas, abalei com os destinos traçados; ergui novamente a bandeira da esperança e da crença, há muito guardada no baú do esquecimento. Saltei à Via Láctea para apreciar as vistas de um mundo renovado, abençoado pelas marés cristalinas do oceano mágico do afecto.

Grito ainda, por tanta maravilha, por tanto esconjuro, por tanta incompreensão, por tanta falha, por algum sucesso, por algumas derrocadas de desilusão…
Gritarei até ao fim, em timbre de soprano ou no silêncio do íntimo, porque o mundo, essa certeza de surpresas, é como uma fábula: é omnipresente, multifacetado, multicolorido e habitado por múltiplas estirpes de Homens e outros seres, algo fantásticos, algo reais, mais ou menos cruéis, mais ou menos samaritanos…

E chegado o términus dos olhares, gritarei à mesma… para que me abram a porta do céu, do inferno ou apenas da cova!
…vão-se as idades, fica o repouso compulsivo…

Andarilhus “(ºvº)”
VIII : VIII : MMVII

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Sábado, Marzo 15, 2008 - 22:17

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Comentarios

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Re: As Mil Idades

O teu grito é o exemplo de quem vive e não se limita a deixar passar a vida.
Gostei muito do teu texto.

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Re: As Mil Idades

Temos de gritar todos os dias compulsivamente por repouso que se conquista desde o berço até á cova!!! Bom texto! Abraço

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