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Victor Hugo: Os trabalhadores do Mar – Primeira Parte: O Senhor Clubin : Livro Primeiro: Elementos de uma má reputação - Capítulo VIII : A cadeira Gild-Holm-Ur

Quem procurasse hoje a casa de Gilliatt não a encontraria, nem o jardim, nem a enseada onde ele guardava a chalupa. A casa mal assombrada já não existe. A península onde essa casa estava edificada caiu à picareta dos demolidores, e foi conduzida, às carradas, para os navios dos alborcadores de rochedos e comerciantes de granito. A península reze-se cais, igreja e palácios na capital. Toda aquela crista de rochedos Partiu há muito para Londres.

Aqueles prolongamentos de rochas no mar, com aberturas e recortes, são verdadeiras cadeias de pequenas montanhas; recebe-se a mesma impressão que teria um gigante contemplando as cordilheiras.

O idioma local chama-os bancos. Há-os de diversas figuras.

Uns assemelham-se a uma espinha dorsal, cada rochedo é uma vértebra; outros a uma espinha de peixe; outros a um crocodilo bebendo água.

Na extremidade da península da casa mal-assombrada havia uma grande rocha, que os pescadores do Hommet chamavam Come de Ia Bete. Essa rocha, espécie de pirâmide, assemelhava-se, posto que menos elevada, ao Pináculo de Jersey. Nas marés cheias, o mar separava-a da península e a Come de Ia Bete ficava isolada.

Nas vazantes ia-se até lá por um istmo de rochas praticáveis. A curiosidade do rochedo era, do lado mar, uma espécie de cadeira natural cavada pelas águas e polida pela chuva. Era pérfida a tal cadeira. A gente ia insensivelmente arrastada até ali pela beleza da vista; parava por amor da perspectiva, como se diz em Guernesey; o encanto dos grandes horizontes retinha lá o observador curioso.

A cadeira oferecia-se logo aos olhos dele; era uma espécie de nicho na fachada a pique do rochedo; trepar àquele nicho era coisa fácil; o mar que o talhara tinha feito embaixo uma espécie de escada de pedras chatas, comodamente dispostas; o abismo tem destas atenções, desconfia sempre da sua cortesia; a cadeira tentava, a gente subia e assentava-se; sentia-se a gosto; tinha por assento o granito gasto e arredondado pela escuma, e por braços duas anfratuosidades que pareciam feitas de propósito; por encosto toda a alta muralha vertical do rochedo que a gente admirava sem pensar na impossibilidade de escalá-la; era simples esquecer-se sentado naquela poltrona; descobria-se todo o mar, viam-se ao longe os navios entrar e sair, podia-se acompanhar com os olhos uma vela até mergulhar-se além dos Casquets, sobre a rotundidade do oceano; pasmava-se, olhava-se, gozava-se; sentia-se o afago da brisa e do mar; há em Caiena um vespertínio, que adormece a gente na sombra com um suave e tenebroso agitar de asas; o vento é esse morcego invisível; quando não devasta, faz adormecer. Contemplava-se o mar; ouvia-se o vento, até que vinha o letargo do êxtase. Quando os olhos se enchem de um excesso de beleza e de luz, fechá-los é voluptuosidade.

Acordava-se de súbito. Era tarde. A maré crescera a pouco e pouco. A água cingia o rochedo.

Estava-se perdido.

Tremendo bloqueio é o mar que sobe!

A maré cresce insensivelmente ao princípio, depois com violência.

Chegando às rochas, encoleriza-se, escuma. Nem Sempre se pode nadar junto aos cachopos. Excelentes nadadores morreram afogados naquele lugar.

Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar é sorver um veneno. É o que acontece, às vezes, olhando para uma mulher.

Os antiquíssimos habitantes de Guernesey chamavam outrora àquele nicho talhado na rocha pela vaga a Cadeira Gild-MIm- Ur ou Kidormur.

Palavra céltica, dizem, não entendida pelos que sabem céltico, e entendida pelos que sabem francês. Quem-dorme-morre. (Qui-dort-meurt) Tal é a tradução rústica. Pode-se escolher entre esta tradução Quem-dorme-morre e a tradução dada em 1819, creio eu, no Armoricano, por Mr. Athenas. Segundo este conhecedor da língua céltica, Gild-Holm- Ur quer dizer Alta-dos-bandos-de-pássaros.

Há em Aurigny outra cadeira deste gênero que se chama Cadeira do Frade, também arranjada pelo mar, e com uma saliência de pedra ajustada tão a propósito que se pode dizer que o mar teve a complacência de por um tamborete debaixo dos nossos pés.

Nas marés cheias, não se podia ver a Cadeira Gild-Holm-Ur. A água cobria-a inteiramente.

A Cadeira Gild-Holm-Ur era vizinha da casa mal-assombrada. Gilliatt ia lá sentar-se muitas vezes. Meditava? Não. Já o dissemos, Gilliatt sonhava. Não se deixava surpreender pela maré.

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domingo, maio 24, 2009 - 15:59

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