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Não Há Dor Que Justifique a Fuga (Hermann Hesse)
A escuridão, as trevas desesperadas, é esse o círculo terrível da vida do dia-a-dia.
Por que é que uma pessoa se levanta de manhã, come, bebe e se deita outra vez?
A criança, o selvagem, o jovem saudável, o animal não padecem sob a rotina deste círculo de coisas e atividades indiferentes. Aquele a quem os pensamentos não atormentam, alegra-se com o levantar pela manhã e com o comer e o beber, acha que é o suficiente e não quer outra coisa.
Mas quem viu esta naturalidade perder-se, procura no decurso do dia, ansioso e desperto, os momentos da verdadeira vida cujas cintilações o tornam feliz e que apagam a sensação de que o tempo reúne em si todos os pensamentos relativos ao sentido e ao objetivo de tudo.
Podem chamar a esses momentos, momentos criadores, porque parece que trazem a sensação de união com o Criador, porque se sente tudo como desejado, mesmo que seja obra do acaso.
É aquilo a que os místicos chamam união com Deus. Talvez seja a luz muito clara desses momentos que faz parecer tudo tão escuro, talvez a libertadora e maravilhosa leveza desses momentos faça sentir o resto da vida tão pesada, pegajosa e opressiva.
Não sei, não aprofundei muito o pensamento e a tirada filosófica. Mas sei que se há bem-aventurança e um paraíso tem de ser uma duração incólume de tais momentos, e se se pode obter esta felicidade pela dor e pela sublimação na dor, não há nenhuma dor que justifique a fuga.
Hermann Hesse, in "Gertrud" (personagem Kuhn)
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