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SANTA MARIA ME VALHA

SANTA MARIA ME VALHA

 

Santa Maria me valha,

Quando tudo me atrapalha,

Não sei o que digo, nem o que faço,

E por isso, por vezes me embaraço.

 

Se é da idade ou do tempo, eu não sei,

Só sei que vivo nas regras da lei,

Durante toda a vida sempre lhe obedeci,

E na ilusão da liberdade permaneci.

 

Boa pessoa dizem que sou,

Mas, para esse lado eu não vou,

O que dizem da boca para fora,

Assim como entra se vai embora.

 

Santa Maria me valha,

Quando tudo me atrapalha,

Não sei se vou se hei – de ir,

Se fique ou se hei – de partir.

 

Vários caminhos já percorri,

Mas apenas um caminho eu escolhi,

O caminho das regras e da obediência,

Deus me dê paciência.

 

Doutor nunca consegui ser,

Mas serei doutor até morrer,

Do tempo que o tempo me deu,

Fora o tempo que já se perdeu.

 

Santa Maria me valha,

Quando tudo me atrapalha,

Indicam – me tantos caminhos,

E apenas só tenho sarilhos.

 

A vida desta vida que tenho,

Construída com o meu engenho,

Já não sei vivo ou como hei – de viver,

Pois toda a vida tenho de obedecer.

  

A minha vida morre se não tiver dinheiro,

Não é só a minha, é assim no mundo inteiro,

Vivo com a ilusão que tenho liberdade,

Mas, tudo não passa duma veleidade. 

 

Santa Maria me valha,

Quando tudo me atrapalha,

Já não sei se é melhor viver ou morrer,

Com tudo o que está a acontecer.

 

Andar no mar ou em terra,

Ou na paz ou na guerra,

Já nada me faz confusão,

Já não sei se hei – de ser honesto ou ladrão.

 

Tudo já é considerado normal,

Ser humano ou animal,

Já não se nota a diferença,

No meio de tanta desavença.

 

Santa Maria me valha,

Quando tudo me atrapalha,

Já o pai não conhece o filho,

E o velho pai é empecilho.

 

A família já ninguém conhece,

O amor já não acontece,

Deus agora virou dinheiro,

É o único deus e cruel parceiro.

 

O início é a nossa sorte,

O fim significa morte,

O futuro é sempre desconhecido,

E o presente é nosso inimigo.

 

Santa Maria me valha,

Quando tudo me atrapalha,

A mim já não me conheço,

E por isso me despeço.

 

 

 

2008-Estêvão

 

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terça-feira, outubro 23, 2012 - 10:05

Poesia :

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José Custódio Estêvão

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