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A taberna

Junto ao bingo
Existe uma taberna pequena
Com um balcão corrido de quatro bancos
A pouca luz que sai dos grandes candeeiros de funil metálico
Presos ao tecto descaídos por um fino fio
Iluminam com suavidade
Os rostos silenciosos debruçados sobre a bebida
Por vezes ocultados pela fumaça de cigarro.

A D. Carolina, sempre simpática e educada
Recebe-nos com o mais cordial dos sorrisos
Sempre com o seu avental vermelho
Que combina de forma perfeita
Com as roupas escuras que habitualmente usa
E boina preta estilo pintor
Faz-me lembrar uma boémia da noite francesa
Sentada naqueles imaginários cafés de Paris
Com que sonhamos um dia vir a conhecer
Mas nunca lá iremos.

Do jazz ao blues
O pequeno espaço todo se preenche
Popular e tipicamente bairrista
Os operários ao fim do dia param e bebem cerveja
Outros cumprem a rotina do dia
Já tão habituados ao tinto e mexericos
Autênticos jornais sem impressão física sempre actualizados

Por volta das 19:17 a noite já cai sobre o Porto
Um homem de cabelo comprido e grisalho
Pede que não o interrompam
E da porta de vidro que dá entrada para o bar
Pede umas velas
Cortaram-lhe a luz e tem dois filhos pequenos
Leva-as dentro de um saco de papel castanho
Daqueles que se usam para os pasteis
Agradece e pede desculpa
E a morte silenciosamente se senta numa mesa
E ninguém fala a não ser os rostos sérios e pensativos
Que expressam palavras afogadas no copo que acabou de ficar vazio

Ao meu lado esquerdo em frente do balcão
Um homem de barba começa a falar
Arrastando lentamente a voz e o copo de vinho tinto
Conta ter dado casa a um gajo
E este nada fez para retribuir um gesto de bondade
Mas o problema principal é mãe
Que sente-se roubada pelas namoradas do filho
E ele desabafa ao som do blues
-Não posso beber, mas em casa dou em maluco,
Por isso prefiro sair e beber os meus copos.

Os bares são muito mais do que aquilo que se pensa
Lá os solitários encontram-se com a solidão
E sorriem para ela como se tivessem acabado de ganhar uma aposta
Os balcões são por vezes suporte do cansaço
O cigarro dá um certo estilo sombrio
E as conversas são tidas para dentro
O único movimento é do barman que se ocupa
Na lavagens dos copos e a receber o dinheiro
De cada trago de conforto
Se houver música ainda melhor
O encontro entre as formas perdidas
Torna-se mais romântico
Os lampiões começam a iluminar com dificuldade
As ruas que recebem os passos embriagados
Aconchego o guarda-chuva
Precisava de uma mulher
Mas estou quase falido
Diante das nuvens que deixaram de chorar.
 

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segunda-feira, março 28, 2011 - 18:45
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