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Aversidades- Parte II (Baseado em fatos reais)

Ao longo da semana, Thais não conversava outro assunto que não fosse o aniversário de Natália. Falava do que iria usar, do que iria fazer...
Os pais carinhosos ouviam e sorriam. Até o cheiro de jasmim começou a ficar mais forte do que o costumeiro odor hospitalar... A filha estava crescendo...
Chegou o sábado, Thais acordou cedo, tomou o seu café, foi falar com os pais e imediatamente ligou o computador. Precisava estar “On Line” com os amigos, saber das novidades, combinar os detalhes de como seria a noite.
Por volta das 19:00 h a menina despedia-se dos pais. O perfume de flores deixava rastro pela casa... Na porta aguardavam Marcos e Luciana que moravam no mesmo edifício. Os demais se encontrariam no ponto do ônibus. O grupo estava muito alegre, rapidamente subiram na condução e em 15 minutos, no máximo, chegavam ao local da festa. Era um local bem interessante, com diferentes ambientes, bem decorados, gelo seco, odores de perfumes misturados ao cheiro das bebidas e de fritura... A música muito alta, espaço para dançar, luzes coloridas... alguns sofás espalhados ao redor... Thais se encantava com cada novidade que descobria! Logo avistou Natália e foi parabenizá-la, as amigas abraçaram-se longamente.
- Como você está linda Thais! – disse Natália. A menina usava um belo vestido vermelho que delineava suas belas formas, o cabelo levemente preso em um dos lados, nos lábios exibia um brilho que combinava com o tom de sua roupa. E é claro, o perfume de flores, sua marca registrada. Realmente estava muito bonita.
- Obrigada, amiga! Sua festa é que está maravilhosa!
- Então, aproveite bastante! Divirta-se que você merece! Faz muito tempo que não sai de casa.
- Pode deixar, farei isso.
Natália afastou-se um pouco para ser cumprimentada por outros amigos e Thais juntou-se ao seu grupo.
A festa transcorria maravilhosamente bem. Todos dançavam, riam, brincavam uns com os outros! Davam especial atenção para a amiga que há tanto tempo não se divertia tanto! Ela estava de fato muito feliz!
Já eram altas horas da madrugada quando o grupo de amigos preparava-se para pegar a condução e retornar para suas casas, após uma festa que iria deixar saudades!
Natália vê Thais e a chama perguntando:
- Thais tem lugar no carro dos meus pais, vem com a gente, vamos para o mesmo endereço...
A jovem estava tão empolgada com tudo que respondeu à amiga:
- Nati, não fica triste, mas eu vim com o pessoal, todos juntos, voltarei com eles. Além disso, Marcos e Luciana também vão para o mesmo endereço e não há vaga no carro para todos nós. Agradeço muito a carona, mas quero ficar com a turma, é minha primeira vez, você compreende, não é?
- Claro! Então, cuidado. Vemo-nos amanhã, me liga quando acordar.
Trocaram mais um abraço, sorrira. Thais voltou para junto dos amigos que a aguardavam. O papo e as risadas entre o grupo eram contagiantes, conversando dirigiram-se ao ponto da condução, o mesmo ficava quase em frente ao local da festa.

O ônibus estava demorando um pouco, já era alta madrugada, e alguns do grupo se apoiaram no muro, para descansar o corpo, inclusive Thais.
O local, Alto da Boa Vista, é uma serra urbana, estrada traiçoeira, onde os motoristas precisam ter muita cautela ao dirigir, pois é uma rodovia de “mão dupla”, ou seja, um sentido sobe e o outro desce. Ultrapassagens são sempre um risco, pois as subidas, descidas e curvas são constantes. A noite estava perfeita, em frente ao ponto, havia uma praça e ao final a entrada para a maior floresta urbana do mundo... O cheiro de mata molhada pelo orvalho era trazido pela brisa...

Esperaram alguns poucos minutos e passou um ônibus em alta velocidade, o grupo fez sinal, mas o motorista não parou o veículo. Até acharam graça, afinal tudo era festa, continuaram inebriados pela luz da lua e pelos momentos tão agradáveis que tinham vivido...
Logo em seguida, veio outro veículo em alta velocidade, fizeram sinal, o motorista tentou parar e... perdeu o controle do veículo, atingindo em cheio os sete amigos contra o muro. Foi um barulho estrondoso, luzes acenderam, cheiro de combustível queimado, um rio de cor vermelha descia pelo canto da rua...Olhares curiosos, sirenes, tudo muito rápido... Trânsito parado, bombeiros, ambulância, era tarde...

O dia amanhecia ensolarado, Catarina acorda e vai ao quarto da filha, estranha a cama ainda feita. Imagina que Thais possa ter dormido na casa de Luciana ou Natália e não quis ligar pelo adiantado da hora. Escova os dentes, olha pela janela, sente o calor do sol em seu rosto, respira profundamente e vai preparar o café. Senta-se para ler o jornal, ao mesmo tempo, alguém chama no interfone, era Natália. Percebe que a menina estava aos prantos, mas jamais poderia imaginar a causa.
Natália e seus pais chegam ao apartamento de Catarina, eram vizinhas, as meninas cresceram juntas, viajaram juntas, estudaram juntas, só não voltaram juntas do aniversário, deste ano, de Natália...
Ao ver a pseudo “tia” Natália aos prantos abraça-a, demoradamente, não conseguia balbuciar nenhuma palavra. A mulher, sem entender o que acontecia, responde ao abraço olhando com interrogação para os amigos que, também, tinham os olhos marejados de lágrimas. O cheiro do café fresco já se espalhava pela casa... Seu coração começou a doer, sentiu um frio na espinha...
- O que houve? Por qual motivo vocês estão assim?
Pedro - pai de Natália- respira profundamente e com voz mansa, diz:
- Catarina, você já leu o jornal hoje?
- Não, estava começando a ler quando vocês chamaram o interfone, ainda nem levei o café do Jonas, que aliás já está cheirando... Mas, qual o problema? Thais ainda não chegou de sua festa, pensei que tivesse dormido em sua casa.
Eles não sabiam como dar a trágica notícia para aquela mulher que tanto já sofrera com o acidente do marido. Novamente Pedro toma a palavra:
- Minha amiga, ontem, no aniversário, Nati chamou Thais para voltar conosco, mas, ela preferiu voltar com os amigos, já que havia ido com eles.
- Pedro, fala logo, você está me deixando nervosa. Só um minuto, preciso apagar o fogo do café. Gritou da cozinha que era bem próxima a sala: aconteceu algo com minha filha?
Pedro esperou que Catarina retornasse da cozinha.
- Como eu ia dizendo, eles estavam no ponto do ônibus e... bem, está no jornal...
- A mulher, em desespero, retoma o jornal e lê: “acidente no alto da boa vista, mata sete jovens, nesta madrugada”. Desmaia.
Pedro e Monica tentam acudi-la. Neste momento ouvem Jonas chamá-la perguntando sobre o café, afinal o aroma estava convidativo. Sentem-se atordoados não sabem como agir, como dariam uma notícia destas ao pai ainda convalescente? Foram segundos eternos. Nuvens cinza pareciam pairar sobre suas cabeças.
O telefone toca, Mônica atende, é o diretor da escola da menina, em prantos com a notícia do Jornal, vizinhos começam a chegar na casa de Catarina, que ainda estava inconsciente. Pedro vai até o quarto falar com o amigo.
- Olá Jonas.
-Pedro? Que te trás aqui tão cedo em um lindo dia de sol? Sentiu o aroma do cafezinho da Cath e veio tomar café conosco? Está querendo se esconder da Mônica? Aqui não é um bom lugar... Ele estava especialmente feliz naquela manhã, aguardava com ansiedade que a filha acordasse para lhe contar as novidades. Diga-me, como foi a festa? Como estava Thais?
O amigo respira profundamente, lágrimas escorrem-lhe pela face e sem meias palavras:
- Jonas, você precisa ser forte!
- O que houve? Forte por quê? Cadê Thais?
Silêncio profundo. Não era preciso dizer mais nada. Jonas chora copiosamente amparado pelo amigo e pelo enfermeiro que chora junto, já havia ele se incorporado à família. Repentinamente o dia ficou cinza...
Catarina já havia redobrado os sentidos, mas encontrava-se em estado de choque. Mônica ligou para Lene e Carlos que imediatamente se dirigiram para lá. Lene ficou com Jonas e Catarina, e começou a avisar o restante da família, enquanto Carlos foi cuidar dos trâmites legais: IML, procedimentos formais, enterro...
Thais era prima de Juca, Joana, Lurdes e Claudia, filhos de Lene e Carlos, e de Rodrigo, filho de Rosa e Paulo. Os primos ficaram inconsoláveis. Rodrigo e Thais eram muito amigos, tinham a mesma idade e cresceram juntos. A preocupação maior, no entanto, era Claudia, grávida de 6 meses de seu primeiro filho, esposa de Miguel, que após saber da notícia, sentiu-se um pouco mal, mas fazia questão de ir ao funeral.
Foi um fato muito comentado na imprensa regional, muitos amigos dos jovens fizeram homenagens, o sofrimento era muito grande.
Catarina desejava ver o corpo de sua filha pela última vez, Carlos tentava persuadi-la a desistir, pois não havia o que ser visto... Foi mais um grande “baque” da vida para Catarina.
No funeral havia muita imprensa, jornalistas, fotógrafos, curiosos, amigos da escola, parentes, os pais, no total mais de 100 pessoas acompanhavam a cerimônia. Catarina amparada pelas cunhadas e amigas e, Jonas, que pela primeira vez, em anos, saia de casa, apoiado por Carlos, Pedro, Paulo e Luis (o enfermeiro). O velório transcorreu sob forte emoção, o cheiro das diversas coroas de flores, misturava-se ao perfume e ao suor das pessoas, o que gerava um odor não muito palatável.
Após o trágico acidente Catarina entrou em depressão. Já não via sentido em viver. Questionava-se o motivo de tantas adversidades, de tanta dor. Não mexera em nada nos pertences de Thais, manteve o quarto, as fotos, era o seu recanto, onde sentia-se consolada, como se sua amada filha ali estivesse com ela, como sempre foi. Passou a usar o perfume de flores...
Jonas, por sua vez, também não via muitos motivos para continuar lutando. Ele e a esposa que já estavam um pouco afastados, foram distanciando-se cada vez mais. Passados cerca de oito meses, Jonas deixa a vida terrena.
Catarina percebe-se só, sua família havia sido desfeita em aproximadamente 03 anos. O mundo parecia preto e branco, as cores fugiram, não conseguia enxergá-las, como também não conseguia ouvir o cantarolar dos pássaros que vinham diariamente beber água em sua janela... Os amigos tentavam consolá-la, os sobrinhos, as cunhadas, todos procuravam confortá-la das mais diferentes formas. No entanto, esta era uma guerra da vida com Catarina e vice-versa. Foram tempos muito difíceis, de muita dor, solidão, angústias...
Mulher de fibra, guerreira, continua, até os dias atuais, morando no mesmo apartamento, manteve seus espaços de “saudade” e com o tempo, entre altos e baixos, foi superando as adversidades tão cruéis que a vida lhe impôs.
Atualmente, passados muitos anos, leva uma vida tranqüila, sai com as amigas, viaja, diverte-se. O nono e a nona também partiram poucos anos depois... Ficou só...
Está sempre próxima da família de Jonas, das cunhadas e sobrinhas em todos os aniversários e datas festivas.
Refez sua vida e trilha o seu caminho com enorme coragem.
Hoje é um exemplo de fortaleza e determinação para todos em sua família!

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sexta-feira, janeiro 22, 2010 - 14:34

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FlaviaAssaife

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Comentários

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Re: Aversidades- Parte II (Baseado em fatos reais)

E num minuto a nossa vida muda completamente...
Qtas vezes uma escolha faz toda a diferença entre um vida longa e uma vida ceifada...
A realidade é mesmo assim, mas enquanto ca andamos q tenhamos a coragem de fazer com q valha sempre a pena!
Beijinho em ti Flavia!
Inês

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Re: Aversidades- Parte II (Baseado em fatos reais)

Flávia.

Que lindo texto!

Gostei muito. É de alta qualidade.

Parabéns,

Bj,
REF

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Re: Aversidades- Parte II (Baseado em fatos reais)

Olá Roberto,

Obrigada pela leitura e pelo incentivo.

Bj

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Re: Aversidades- Parte II (Baseado em fatos reais)

Sendo o 1º conto trágico este mais trágico é...mas, infelizmente, assim é a vida...imensas pessoas se perdem por ai na estrada, em acidentes...

Este seu conto me fez lembrar um caso cá em Portugal, que aconteceu o ano passado, de 7 jovens, mulheres, que perderam a vida num acidente de viação...

Apesar, de tanto drama, gostei de ler :-)
Espero um conto mais alegre ;-)
beijinho!

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Re: Aversidades- Parte II (Baseado em fatos reais)

Oi Dany,

Obrigada pela leitura e pelo comentário. Irei tentar escrever algo mais alegre, também...

Beijinho

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