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Eternos Rituais

Pequenos passos atravessam o corredor parando junto à porta da entrada. O sol lá fora está forte não convidando ao passeio habitual. Mas a rotina é rotina e o ritual é para manter.
Os pés são obrigados a avançar e as mãos trémulas obrigadas a rodar a maçaneta expondo todo o corpo ao calor abrasador. Não se vê uma única alma na rua, embora por norma seja a hora mais movimentada no pacato bairro de vivendas entalado entre a selva gigante de prédios.
As persianas da vizinhança estão corridas, como que com medo de encarar o sol e o relógio da torre da Igreja. As horas chamam às obrigações, mas nem isso é capaz de convencer a população a meter o nariz fora de casa.
Mas há ritmos que não se podem quebrar, rumos que não se podem abandonar e os primeiros passos, hesitantes, são dados. Logo de seguida são substituídos por passos firmes, numa cadência familiar que não apercebe temperaturas nem distâncias.
Passos solitários enfrentam o asfalto, procurando inconscientemente uma qualquer sombra que possa apaziguar a sensação estonteante de calor. São poucas as que se avizinham, poucos toldos se avistam e poucas árvores alcançaram um porte frondoso que possa amparar os incautos viajantes em tardes sufocantes.
Não importa, não há tempo para ficar a admirar paisagens, pouco ou nenhum tempo se perde em cada sombra e, não havendo nenhuma, mais rápido se ruma ao destino.
Não há necessidade de olhar o relógio, cada passo marca o seguinte, marca a proximidade de um destino que se revela idêntico apesar de sempre distinto. Cada passo procura o rasto traçado anteriormente, não tem de ser pegada sobre pegada, mas a proximidade acalma a alma, impede que se perca a força, que se afunde perante o peso da ansiedade latente.
Fica para trás a pacatez do bairro aquando do mergulho na confusão de prédios cujas sombras negras por um lado protegem do assalto violento do calor e por outro empurram para as trevas do desespero interior, para uma solidão cutucada pela multidão que apressada nem olha em redor.
Não há possibilidade de retorno, não há espaço para arrependimentos, nem atuais nem de tempos idos. Para a frente é a única hipótese, é a única forma possível de sobrevivência, de manter acesa uma chama que embora não dê mais calor ilumina os rescaldos da sobrevivência.
E é pelo respeito de um passado findo cedo demais, pelo sentimento presente numa solidão acompanhada, que as passadas são momentaneamente interrompidas no mesmo local de sempre. Moedas contadas são trocadas por lembranças de primaveras joviais e gargalhadas cristalinas escondidas agora em flores alegres de aromas doces que ferem o desejo de permanecer no esquecimento.
É retomada a demanda, desta feita com mais afinco, com novo alento. Este não é de todo risonho, pelo contrário, lágrimas sorrateiras espreitam no olhar triste, mas não interrompem o que não pode ser interrompido.
Ficam para trás prédios mergulhados no negrume entristecido e retorna a luminosidade exacerbada do dia, revelando a impaciência dos passos, o tremor das mãos ao antever o destino final.
Ultrapassado o portão escancarado, o caminho empedrado é percorrido maquinalmente, como que se de uma segunda casa se tratasse. O olhar facilmente reconhece a esquina a dobrar, a estátua a contornar, assim como os passos familiares de outros visitantes que vagarosos olham o infinito buscando um qualquer sinal, um apoio para a viagem de regresso ensombrada por algo mais intenso do que o calor abrasador.
É chegado o momento de encarar a realidade que neste espaço a céu aberto sufoca quantos por ali passam, realidade camuflada desde o momento da partida até ao inevitável regresso, seja ele quando for, pois o tempo deixou há muito de fazer sentido.
O mergulho nas recordações provoca sempre a mesma angústia, pouco importando a consciência dolorosa do tempo que não pode ser parado, muito menos recuperado. Nada nem ninguém consegue travar o impacto avassalador da solidão ao imobilizarem-se os passos, ao serem depositadas as flores, ao serem proferidas palavras inaudíveis que buscam um consolo que não surge.
E após monólogos repletos de vivências tantas vezes repisadas, de perguntas para as quais não há resposta possível, após a procura de um regresso a tempos em que as agruras eram ultrapassadas a dois de forma ligeira e as vitórias partilhadas com euforia, há que regressar à realidade.
Passos trémulos forçam o regresso a casa, uma casa com cheiros e cores do passado, em que o amor preso em cada canto acaba por toldar a agonia, revigorando forças para que o dia seguinte seja encarado como um recomeço e não um fim soturno e solitário.

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segunda-feira, julho 30, 2012 - 16:47

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Lúcia Barata

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