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AS MINHAS RAÍZES

Voltei a ouvir-me por dentro, a sentir escorrerem “Penas Da Alma Para A Mão”, e o sentimento maduro caindo como um fruto, aos pés da árvore, no chão junto às suas raízes expostas ao tempo.
Desta vez foram as raízes que falaram mais alto, foram os sentidos desatados de nós que se perderam compaginados no pensamento, porque a difícil desconexão das palavras leva a razão ao suicídio, não se pode cortar a união que envolve a sombra oculta das memórias e a imensidão do tempo que preserva a palavra clamando vida perpétua entre os livros.
“Nós Das Raízes” é a sublevação do ser dessas palavras, as de antes que nasceram no tempo sem data, vieram ao mundo em tempo remoto, atravessaram filtros depurativos de saudade, coados de emoções, fugidas da alma através da mão, apenas penas que valem a pena, – «Se valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena!», as mágoas sentenciadas por tanto momento de silêncio consentido, as sombras despertas da alma que na sua loucura ganham rosto e se metaforizam em palavras que dizem tudo do nada, a herança ruminada por tanta palavra intuída, da sabedoria ao longo do tempo, passada de geração em geração, difundida pelos mentores do conhecimento empírico, a palavra poetada é sonho augurado de uma imaginação prodigiosa, inata, inferno de sentidos que não se cala por dentro, onde se moldam os mais belos poemas pensados, sim, porque a mais bela poesia jamais será encontrada em páginas de livros, ela é martírio do pensamento, ela vem quando não há por perto um lápis e uma folha vazia que imortalizem esse pensar sublime, essa miríade cristalina que habita os confins da alma e que por um segundo se revela sem haver tempo de escrevê-la porque logo se transforma em pó que a ventania do esquecimento se encarrega de dissipar para bem longe do momento pensado. Fica apenas o gosto desse verso que foi ditado pela alma para se ouvir no coração e ficar com a sensação de se ter feito a mais bela poesia.
Pascal dizia que, nada senão Deus, podia encher a sua alma. A poesia é a oração do espírito-alma, ela é o bálsamo calmante de fé que fortalece as raízes com Deus. A fé exprime-se por palavras. Mallarmé defendia da poesia, a apologia suprema do homem como literatura, «Rien n’existe que pour aboutir à un livre», nada existe que não seja alimento de um livro, e tudo sendo palavra, também é obra de Deus.
Eu atrevo-me a dizer – nada existe que não seja cadáver da poesia. Tudo o que amamos morre. Não há ressurreição nem mesmo para a poesia. A poesia é um sim da intemporalidade espiritual que perdura no seu tempo, vivemos rodeados de espíritos poéticos, é superior aos seres mortais, é herança de todos os homens, deixada por Paul Valléry, Rimbaud, Mallarmé, Pascal, Baudelaire, Apollinaire, Rilke, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, José Régio, Guerra Junqueiro, Casais Monteiro, Cesário Verde, Cesariny, Sophia de Mello Breyner Andressen, Florbela Espanca, Cecília Meireles, Sílvia Plath, Castro Alves, Machado de Assis, Eugénio de Andrade, Ramos Rosa, Maria Teresa Horta, Natália Correia, David Mourão Ferreira, Pedro Tamen e tantos outros, uma lista infindável de nomes que povoam esta esférica existência.
O humano silêncio de impotência quando nos escravizamos através da palavra evadida da nossa alma e ainda que longínqua de nós, a ela nos sintamos rendidos e subjugados pelo seu poder metamorfoseado, absoluta na sua criação, passagem secreta dos corredores obscuros da alma para o futuro, a palavra pensada torna-se imortal, o cárcere corpóreo desaparece, a alma fica sem abrigo físico, no entanto continua a florescer por entre o jardim secreto das palavras e os versos interpretados dos livros que lemos, invisível, perseguida, desencontrada, ela consegue ultrapassar todas as barreiras consumidas pelo pensamento até se aninhar nas páginas vazias de um livro.
A poesia intencional e humanista reside na ambiguidade do corpo e da alma como um todo. O corpo com a identidade que lhe é definida, daí o ser-mos a Ana, o José, a Maria, o João, e a alma como uma infinidade de identidades que busca a razão sobre a mágoa, a felicidade, a vida, a morte, a verdade, a mentira, a trágica oposição de tudo o que se pode sentir e pensar. O poema tornou-se a passagem entre a realidade e o secreto. A poesia são experiências secretas únicas, numa tentativa de apreender na palavra uma realidade que nenhum dos sentidos toma conta, porque está ausente. Poesia é alquimia pura. Poetar é quimera filosófica. Expressa-se o que não se tem, o que não se vive, as ausências que se vivem matam-se pelo pensamento, desmistificam-se as paixões que nos têm presos aos sonhos por florir, desenraíza-se o tempo que não vive de manhãs, nem acorda para revoltas, acende-se a luz dentro da lucidez iluminada por uma cegueira ilusória sucumbindo à tempestade aguada do pensamento espiritual aflorado pela sensualidade do desgosto emotivo.
Quanto maior é a dor, mais doloridas são as lágrimas das mágoas derramadas, mais profunda é a sensibilidade da palavra contida no poema.
Eugénio de Andrade desmembrou a pureza da poesia ao dizer que não se conseguem escrever poemas quando se é feliz. O belo mora na cidade da melancolia. Quem vive na felicidade não pode ser poeta. A poesia tem que provocar estados puros, estados de alma sentimental genuínos de pureza, no leitor, nunca contaminados pela alegria, pelo contrário, completamente ensopados de tristeza. O sujeito poético pode reinventar palavras para definir estados de alma imensamente secretos, muitas vezes de difícil acesso para o comum dos mortais, nem todas as pessoas conseguem ler e compreender a poesia.
As penas consentidas pela alma, desatados os nós das raízes, são conduzidas através da mão, acto de parir, acto de purificação consciente e objectivo. Subjectividade que na forja da alma as mesmas penas são moldadas para serem formas de recusa e de consentimento, em metal palavra. Bate-lhe o malho da escrita e cada amolgadela é o sinal palpável do excesso de sentido. Tempera-se o ferro palavra no braseiro da emoção alma, no fogo dos sentidos, reinventam-se as palavras para serem formas enigmáticas aos olhos dos poetas presentes e vindouros, a palavra é a concha onde renasce o perpétuo nascimento do poema de cada vez que ele é lido por alguém, a palavra não é mais do que agonia do poeta, porque ele sempre tem a profunda consciência de tudo o que o martiriza e deixa transparecer em cada letra que vai juntando até formar o molde que vai exteriorizar tudo aquilo que ele sente em forma de poesia.
No percurso da criação da palavra, através do seu crescimento, do seu amadurecimento agarrado à árvore do tempo com as suas raízes na alma, dá-se o confronto entre a vida e a solidão que apenas combate com o silêncio tal e qual uma espada transformada em pena. Esta luta sem vencedor nem vencido é a prova de que a palavra vive parasita do corpo que a transporta através de idades que vão testando a sua força conforme os géneros de escrita a que se agarra, acolhida pela consciência do poder criador e imaginativo que pode revelar, ensaiada pela arma pena em luta corpo a corpo e alma a alma, nunca consegue separar-se do habitáculo onde se aninhou para por palavras crescer e multiplicar-se.
Fortemente agarrada à terra por nós das raízes, denotando força maior, mais segurança, maior firmeza, são palavras inventadas num tempo atrás, mas que amadureceram porque parido que foi o primeiro livro (Penas Da Alma Para A Mão), apesar de antigas, nasceram mais vigorosas, mais criativas, com o esplendor da pureza da criação genética inata, rabiscadas em guardanapos de papel das esplanadas dos cafés, em pedaços de papel roubados às páginas de um qualquer jornal, nas folhas em branco de livros onde a sua leitura apaixona e é embriagante, no meu pequeno caderno de notas que sempre me acompanha para todo lado.
A escrita é o ópio que me inebria até à exaustão.
 anabarbarasantoantonio

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quinta-feira, maio 5, 2011 - 21:46

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