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Penso, rendo-me e sorrio

Viro a cara ao vento porque me beija com areia, não obstante, a praia está como gosto: propícia a passeios pensativos.
Os pensamentos são como uma constante monção: inundam-me e dão-me vida.
Gosto de pensar.
Umas vezes deixo os pensamentos fluírem, outras procuro sabotar o seu curso ou dominar a ordem do dia. Tarefa ingrata, esta última.
Sorrio...
Penso como sorrio bastante quando estou a sós. Talvez seja porque não preciso justificar o sorriso, dizer porque existe em cada momento que emerge. Imagino que a musa do Mona Lisa não terá tido descanso. Com um sorriso tão enigmático deve ter sido assaltada por muitos inquiridores...
_ Ah, Mona Lisa que segredos ocultas no teu misterioso sorrir? - Penso e sorrio.
Prossigo o passeio por entre as rochas. Procuro o meu sofá revestido de algas. Local onde me instalo e me entrego ao que apetece.
Hoje, não há ordem do dia, no entanto, gostaria que não nos tivesse no horizonte interior… Estou verdadeiramente saturada de sonhar acordada. A corrente de imagens é forte e eu...ou remo contra ou deixo-me levar. Qualquer uma das opções é cada vez mais esgotante.
Imaginem um data show ininterruptamente passando as mesmas imagens. Não importa onde estejam ou o que estejam a fazer! Se combato, as imagens ficam ali encravadas, martelando a cabeça, ainda que finja não ver ou sentir. Se me deixo levar, o olhar fica vazio. Ausento-me enquanto mergulho na corrente de lava que existe dentro de mim.
_ Normalmente, acalmo a viagem com um banho frio... - Penso e sorrio.
Por cada recordação real, mil dados novos dão novo colorido à ficção. Registo uma vida repleta de gestos que não existiram e respiro com dificuldade perante as emoções que sufoquei.
Dizem que o tempo apaga tudo, mas eu continuo a rever, com muita clareza, todos os passos que dei para perpetuar o meu jejum. Neguei-te e isso fez de mim uma Judas. Condenada a inspirar sem ficar inspirada…
Suspiro e levo as mãos aos lábios e ao peito, sinto o toque da lava em mim… Se te olhasse teria a boca naturalmente pintada de vermelho vivo. De olhos semicerrados ouço, com atenção, a respiração crescente.
_ Virada para mim mantenho-me quente. – Penso e sorrio. Deixo-me ir…
Da minha poltrona vejo o mar. A primeira vez que me tocaste também tínhamos o mar pela frente. Provavelmente, não te recordarás mas rir era uma constante entre nós. Não era preciso perguntar porquê.
Sempre estranhei essa tua capacidade de extraíres de mim toda a dor. Através de ti, tinha acesso a um mundo desconhecido e eu não acreditei na felicidade que me oferecias. Duvidei como uma criança nascida de um ventre sacudido, espancada à nascença. Tu não o sabias e eu não o contei, a dor era a minha zona de conforto e o ambiente que viria a reproduzir.
_ Acreditei que me darias acesso a uma felicidade maior, para depois me deixares cair num patamar abaixo da condição miserável em que vivia. Ao crescer, a época de caça abriu durante todo o ano e eu não aceitei que te tornasses num mero caçador. Qualquer um, menos tu… Parece-te lógico? – Sorrio e penso.
Não obstante, certa noite, o meu corpo vestiu-se de seda perfumada e a pele ardeu numa febre que se alimentava de olhares, sorrisos e beijos. Não transpus a porta do meu quarto. Ali fiquei trémula e quente. Não compreendi o que sentia e hoje mesmo, confesso, jamais ter sentido desejo igual. Nem a melhor sequência de orgasmos teve o mesmo impacto, a lava limita-se a correr, vagarosamente, os canais ocos em mim. Não há lugar a explosões de desejo, apenas estremeço numa contracção involuntária e convulsiva dos músculos, um encerrar das horas de prazer proporcionado.
_ Orgasmos sem êxtase! Apenas alívio, descompressão… - Sorrio e penso.
Ainda que não saiba o que é fazer amor no mais puro arrebatamento e na mais apaixonada entrega, sei o que é o sexo puro e duro a que chamam de amor. Talvez também o seja, não sei… O único termo de comparação está no beijo que não incendeia, no pulso que não acelera, na face que não arde.
_ Os teus beijos eram como ferros incandescentes e os teus olhos um vertiginoso abismo. Caí e fui marcada com o meu próprio fogo, assim o repete a lava no seu devastador deslizar… - Sorrio e penso.
De olhos fechados, voltada para nós, ardo nas horas que roubo para mim. Deixo-me ir e um ritual antigo recomeça… Os meus cabelos levo à boca, os dedos deslizam pelo rosto, as mãos espalham cabelos na almofada, os nós mordo e desato, o corpo lateja na vontade insana de te ter, realmente, um dia, uma vez…
Viro a cara ao vento porque me beija com areia. Penso, rendo-me e sorrio.
 

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quarta-feira, abril 20, 2011 - 02:31

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Ema Moura

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