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PERNA AMPUTADA

Estava atravessando a rua quando percebeu que tinha esquecido o telefone na mesa, bateu com a mão na testa como quem diz - que burro - e retornou ao café.
Eram tantas coisas acontecendo naquela manhã, lembrou-se imediatamente que não poderia chegar atrasado, a reunião que marcara com seu chefe para daqui a meia hora era fundamental para sua carreira. Estão reciclando os funcionários, foi por isso que o Betinho saiu, lembrando-se do que o Arnaldo falou, é a nova diretoria... Ficou pasmo, mudo. Como assim, reciclando? Sou um lixo? Recicla-se o lixo, não pessoas. Contudo sua mudisse temporaria serviu-lhe de combustível, e declarou na frente dos colegas que teria um novo projeto para daqui a dois dias! Dois dias sim! Por que eu não preciso ser reciclado!!!
Quando chegou na mesa da cafeteria não encontrou seu telefone. Falou com o garçom, não. Ninguém tinha visto seu aparelho. Sempre assim, ninguem vê nada, ninguém sabe de nada, mas todos exigem uma explicação. Faltavam quinze minutos, tinha que ir. Atravessou a rua e se dirigiu à praça, notou que várias crianças corriam para a escola do outro lado... Pelo menos não perderam o celular. Com uma careta entrou na recepção, cumprimentou o porteiro e subiu ao décimo andar.
Explicou sua campanha publicitária, um sucesso, aprovadissima, com apertos de mãos e congratulações invejosas de muitos colegas que eram a favor da "reciclagem". Retornou a sua sala satisfeito, um sorriso de quem havia feito o melhor sexo de sua vida.
Meu celular!? Lembrou-se, discou seu numero. No outro lado da linha uma voz macia e doce atendeu.
Alô!? Alô quem fala!? Quem é você!? Como assim quem é?! Você está com meu celular! Quem é você!? Ah! Ainda bem que você ligou... Queria muito falar com você... Como? Você quer falar comigo!? Sim, já faz algum tempo... Quem é você? Bem, eu... eu sempre admirei seu trabalho e ... Você me conhece?! Sim, digamos que... Que tipo de brincadeira é essa? Não se trata de uma brincadeira, sim uma proposta de trabalho... Trabalho? Mas o que é isso? Quem é você!? Que merda é essa? Você roubou meu celular, quem é você, o que você quer, o que significa isso!?
Calma, calma, eu só queria falar com você, e essa foi a melhor maneira.
Uma zonzeira passou-lhe pela cabeça, sentiu-se acuado, queria não responder nem perguntar mais, tremeu.
Antes que a voz pudesse terminar, desligou.
Meu deus o que era isso? Deveria ser uma brincadeira de muito mau-gosto que um de seus colegas estaria fazendo. Devem ter roubado meu celular enquanto fui ao banheiro e agora se divertem as minhas custas. Não isso não vai ficar assim, vou descobrir quem está fazendo isso, e não vou deixar barato.
Levantou-se, foi até a porta, ameaçou abri-la, não, a persiana, sim a persiana, mais discreto... Observou o salão, todos trabalhavam, viu a secretária, Dona Eneidinha, uma senhora de seus quase sessenta anos, há muito trabalhava para a empresa, já estava lá quando ele entrou. Pensou em chamá-la, ela com certeza saberia de algo... Não, não, eles não diriam nada à ela. Melhor esperar por outra ligação.
Aquele dia foi o mais longo de sua vida, as horas não passavam, não conseguia se concentrar, ficou trancado na sala o dia inteiro, mandou buscar comida e ali mesmo almoçou. Nada do telefone tocar, apenas alguns clientes, algumas interrupções de dona Eneidinha, nada mais.
Às seis horas saiu da empresa. Resolveu voltar ao café de onde roubaram seu celular. Atravessou a praça suspeitando até das crianças que corriam pelo jardim. Rapidamente entrou, sentou-se e chamou o garçom. Pediu um latte, olhou para os lados nervoso, Qual tipo de leite Sr. Ronaldo? Ahn!? Leite? Não, não, me de um expresso duplo. Com licença senhor. Seu nervosismo era aparente, olhava para os dois lados a procura de alguém, alguma coisa, qualquer movimento, uma mulher, teria de ser uma mulher, a voz era muito suave. Passou a observar todas as mulheres ao seu redor. Até que um homem sentado no outro lado fez uma cara que ameaçava briga. Abaixou a cabeça, e tentou se acalmar, estava dando muita bandeira, afinal de contas, aquilo não era nada, foi apenas uma simples ligação, era apenas uma brincadeira, sim, um trote do sacana que roubara seu celular. Se ligassem iria ameaçar chamar a polícia, pronto, e chamaria sim. Isso mesmo, se algo acontecesse iria até a delegacia e faria um B.O.
Nessa noite não dormiu. Teve pesadelos horriveis, uma voz o perseguia pelas ruas, os orelhões da cidade pareciam bocarras enormes, escancaradas que o queriam devorar. Tropeçou em um fio de telefone gigante que gargalhava e se enroscava em seu corpo como uma enorme cobra, sufocando, apertando, acordou.
Acordou em bicas de suor.
Retornou ao trabalho cansado, nervoso, com olheiras. Naquele dia nenhuma ligação. Dona Eneidinha reparou, mas não obteve resposta dele.
No terceiro dia sem ligações, conseguiu dormir. Aceitou o fato de ser apenas um trote. Acordou tranquilo. Aliviado. Digamos, quase feliz. Era domingo, ah! Os sagrados domingos, dia de descanço, de ir a um restaurante, de passear pela cidade. Naquela manhã, o telefone gritou e ele também. Aquele tirintintar do telefone anunciava o retorno de suas angustias. Como aquele monstro não parava, atendeu.
A voz anunciou seu suave e macio "Alô", reconhecendo a voz de seus pesadelos, gaguejou.
Bom dia. Desculpe a demora, mas aconteceram uns imprevistos...
Ele não conseguia falar. E tão pouco importava se tinham surgido imprevistos, queria nunca mais ouvir aquela medonha voz.
A voz continuou... Senhor Ronaldo, já que as tarifas de telefonia estão carissimas hoje em dia, e o senhor ainda não mandou desconectar sua linha, vou poupar-lhe algum dinheiro indo direto ao ponto.
Burro! Burro! Mil vezes burro! Como não pensou nisso antes!
A coisa é simples, preciso do seu serviço como publicitário, quero sua perna direita, não o corpo todo, só a perna.
O que!? Minha perna direita!? Você é louca! Louca! Minha perna direita!?
Impulsivamente desligou. Correu até o quarto. Correu até a sala. Gritou. Sentou-se no sofá.
O telefone tocou novamente.
Ah! Vá pro diabo que te carregue, não vou te atender, não vou! Infeliz, filha da mãe.... Maluca, doida, maluca.... que brincadeira idiota é essa!!!!
O telefone não parava de tocar. Entre xingamentos histéricos e a gritaria do telefone sua cabeça rodava... Parou de tocar.
Respirou fundo. Uma, duas, três vezes... Arrancou com força o aparelho da tomada e jogou-lhe contra a parede. Colocou as mãos no rosto e se ajoelhou.
A campainha tocou. Viu quando um papel era enfiado por baixo da porta. Ligeiramente levantou-se e correu em direção a porta queria encontrar essa engraçadinha filha da... mas quando destramelou, não viu ninguém. Pegou o papel. Leu:

"Não o corpo, não o braço,
Não seu figado, nem seu baço,
Apenas sua perna direita.

Ps.: é que estou escrevendo uma história para um site na internet, e precisava arrumar uma maneira de amputar-lhe a perna, de uma forma ou de outra isso será feito, afinal você é meu personagem. Seja gentil, faça isso por sua criadora, dê-me sua perna, sem que para isso eu tenha que criar um vilão para arrancar-lhe tal membro."

O senhor Ronaldo pensou em tudo o que tinha lido. O absurdo mais absurdo que já poderia ter ocorrido. Mas eu não deixei que ele tivesse muitas idéias próprias, afinal eram minhas as suas. Fechou a porta. Com lágrimas nos olhos foi até a caixa de ferramentas, tirou um serrote e desesperadamente chorando, serrou sua perna direita.

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quarta-feira, outubro 7, 2009 - 05:16

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ZiZi

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Re: PERNA AMPUTADA

Muito obrigado Mefistus!!!
Você é quem tem talento!

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Re: PERNA AMPUTADA

Zizi;
Quanto talento demonstrado num mistério inquieto
Sublime...

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