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Razão de Te Amar
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Capítulo 01
Pátria

Rosa Maria e sua família estão passando por momentos complicados, quase desumanos, em seu país de origem, devastado por uma grave crise político-econômica, que culminou na deterioração social de toda a nação. Em meio à uma inflação descontrolada e o total despreparo do chefe de Estado para comandar o país, o destino das pessoas é alterado quase que instantaneamente, a fome se alastra de forma alarmante, o caos é instaurado nas ruas e diversas manifestações colocam o país em meio a uma guerra civil.
Entretanto, há esperança para Rosa Maria: por conta de um amigo em comum, sua família consegue arranjar uma viagem para os Estados Unidos, onde pretendem buscar uma nova vida, mais digna, completamente à parte dos horrores pelos quais estavam passando. A estadia provisória tinha o intuito de se transformar em estadia permanente, caso o destino ajudasse a família, mas a incerteza da deportação se tornaria um medo constante.
Em meio à tentativa de sobrevivência em um novo país, Rosa Maria guarda lembranças de seu primeiro amor, um rapaz com quem conviveu durante os períodos difíceis em sua terra natal. O que ela não imagina é que se apaixonará novamente, e essa paixão acontecerá de forma inesperada. Mais do que isso, o que ela também não imagina é que terá que enfrentar dificuldades, sonhos e preconceitos para levar sua vida adiante. Como se não fosse o bastante, outros amores cruzarão a vida de Rosa Maria, outros obstáculos influenciarão seus sentimentos, deixando seu novo mundo, agora recém-conquistado, de cabeça pra baixo.
Se sentimento e razão muitas vezes são tratados como opostos, é possível que Rosa Maria encontre razão para o amor que sente, especialmente em meio ao turbilhão de sentimentos pelos quais passará, convivendo com medos, decepções e incertezas? 

Capítulo 01
Pátria

Naquela manhã, acordei com fortes dores no estômago. Eu havia desenvolvido gastrite crônica por conta de passar muitas horas seguidas sem comer ou mesmo dias sem me alimentar direito. A comida era escassa em um país devastado pela pobreza, crise econômica e corrupção. Ao me olhar no espelho, pude me notar pela primeira vez alguns quilos mais magra.
Mas a dor não me deixou permanecer de pé, então me deitei novamente. Somente horas depois de me contorcer na cama levantei-me mais uma vez e abri as cortinas para que a luz do sol entrasse. No entanto, ao olhar através da janela do meu quarto, no terceiro andar do prédio onde eu morava, meu coração ainda teve forças pra bater mais forte de susto, de desespero. Meu corpo tremeu e em poucos instantes meus olhos já vertiam as lágrimas de desesperança, de angústia. Era a ânsia pelo fim de um pesadelo.
Através da janela eu observei a realidade cruel do mundo: pude ver meus vizinhos, no quintal de uma casa velha, com a pintura descascada pelo tempo, dilacerando um cachorro para o cozinharem em uma fogueira improvisada recém-acesa. Não havia nem mesmo gás de cozinha para preparar os alimentos de um modo decente, digno. Mal havia alimento. É isso mesmo que eu acabei de afirmar: os mais pobres, para não morrerem de fome, passaram a comer a carne dos cachorros vira-latas que vagavam pelas ruas, e sinceramente não duvido que muitas pessoas tenham comido seus animais de estimação. Lamentável, triste, assustador! Comer carne de gato e de ratos também fazia parte da busca desesperada pela sobrevivência naquele país demolido pelo algoz de uma política populista e totalitária.
Jamais duvide do poder destruidor de uma ideologia nas mãos corruptas do ser humano, e neste caso eu falo do socialismo bolivariano, tido inicialmente como uma forma de organização política e econômica que, na verdade, foi parte de um culto ao ego fomentado por fins políticos, fins esses que nada têm a ver com as ideias originais de seu fundador. É quase sempre assim: os governantes se apropriam de uma ideologia e a adaptam aos seus propósitos tiranos, às suas ganas pelo poder, opressão e dinheiro. Tudo isso somado à instabilidade do governo, da economia e às sanções e embargos econômicos impostos à minha pátria por parte de governos estrangeiros, tornou meu país um caos de pobreza, fome, morte e revolta.
A náusea insuportável invadiu meu corpo, senti vontade de vomitar depois de ver aquela cena que era o retrato da miséria. Me joguei na cama de novo, encharquei o travesseiro com o choro aflito de quem não aguentava mais tanta injustiça. Independentemente de quem fosse a culpa, fato era que o meu povo estava passando fome, quase não havia comida nas prateleiras dos mercados, a moeda do meu país não valia mais nada. Era preciso o salário de um mês inteiro pra comprar um litro de leite ou um quilo de carne bovina, e isso caso encontrássemos um lugar onde esse produto estivesse disponível. As filas nos açougues pra comprar carne podre eram enormes, afinal comer carne podre é melhor do que morrer de fome.
 A sorte da minha família era que, por ter alguns contatos importantes, meu pai ainda conseguia um pouco de comida com amigos comerciantes e fornecedores estrangeiros, o suficiente para não precisarmos comer ratos ou coisas do tipo, mas nada de carnes nem qualquer comida especial, apenas vegetais, como frutas e legumes; às vezes leite, quando muito.
Na realidade, as coisas nem sempre foram assim tão difíceis. Antes de todo o caos se instalar em meu país, nós tínhamos uma vida boa, uma vida digna. Meu pai era um empresário da área de jardinagem e paisagismo, de classe média alta, e minha mãe, uma dedicada dona de casa. Tínhamos carro, casa própria, lucro, até negociações com clientes estrangeiros!
Mas a vida na América do Sul tornou-se um verdadeiro pesadelo quando a gana pelo poder fez com que nosso antigo presidente decidisse redistribuir a riqueza da nação para os mais pobres. É sempre assim: os políticos juram que tudo o que fazem é para o bem do povo, mas, no fim, quase tudo que fazem é para o bem de si próprios. Eles não se importavam se o povo morreria de inanição.
E não era apenas a fome que nos afligia, a censura também. Todos os meios de comunicação que fizessem qualquer manifestação contrária ao governo eram interditados ou mesmo confiscados pelo Estado.
Naquele momento, quase todas as economias que meu pai havia juntado em dólares nos bons tempos foram usadas para comprar nossas passagens aéreas para os Estados Unidos. Iríamos como visitantes para nunca mais voltar. Um velho amigo, seu nome era David Jenkins, ex-empresário e professor universitário, nos receberia como anfitrião em Ocean City, no estado de Maryland. Nos tempos antigos, ainda quando eu era criança, meus pais e eu já havíamos visitado a América do Norte. Meu pai, Santiago Rodríguez, chegou a ir mais vezes pra lá quando ainda era um empresário bem-sucedido, antes de perder tudo. A ajuda de amigos comerciantes em nosso país fez com que meu pai ainda mantivesse o status de empresário e vínculo com a nossa nação até aquele momento, mesmo estando de fato falido.
Mas não permaneceríamos em Ocean City por muito tempo. O auxílio do David era só para a chegada; ficaríamos apenas alguns dias em sua casa, até que ele conseguisse com seus amigos latinos da Califórnia trabalho e casa para a minha família. Assim que chegássemos aos Estados Unidos, tudo seria decidido. As pessoas em geral tinham medo de se envolver demais nessa situação. Nosso plano era partir o quanto antes de Ocean City para a Califórnia a fim de trabalhar e começar uma nova vida. Não queríamos comprometer o destino de um amigo com nossa futura situação de imigrantes sem status.
Foi nossa sorte ter a amizade do David. Aquela era a nossa única chance, seria um verdadeiro milagre. Havia sim o risco de não passarmos pela polícia de imigração quando chegássemos à América do Norte. Éramos turistas estrangeiros vindos de um país em crise, onde grande parte da população sofria com a fome, onde muitos estavam comendo carne de cachorro para sobreviver. As autoridades norteamericanas poderiam muito bem desconfiar que estivéssemos na verdade fugindo, nos refugiando. Mas o risco valeria a pena, isso era o que meu pai dizia. “Se temos que ir embora, iremos para o melhor lugar”, ele afirmava.
 
***
 
Já era fim da tarde quando meu pai entrou pela porta da sala carregando duas sacolas na mão. Já não comíamos há pouco mais de vinte e quatro horas. Eu e minha mãe, Doralis, permanecíamos sentadas no sofá, eu com minha cabeça recostada em seu colo e ela clamando a Deus que nos poupasse de morrer de fome ou doentes até que chegasse o dia de fugir.
— Rosa Maria, minha filha. Doralis, meu amor – meu pai chamou pelo meu nome e de minha mãe depois de colocar as sacolas sobre a mesa.
— Pai, meu estômago dói, me sinto muito mal – eu murmurei.
— Sei que estão famintas. Consegui frutas, verduras, legumes e leite. As filas para comprar comida continuam atravessando os quarteirões. Eu vou servi-las. Precisam comer frutas e tomar leite – ele disse, enquanto tirava as coisas da sacola. Pegou os copos e os pratos.
— Obrigada, pai. Sei que não está sendo fácil conseguir alimento por um preço que podemos pagar, sei que precisamos economizar os poucos dólares que ainda restam para a viagem, afinal é tudo que temos. Mal posso esperar pelo dia do embarque. Quero estar longe desse inferno – eu disse com voz fraca. A dor da fome e da gastrite arrebentava meu estômago naquele instante.
— Não há futuro para nós aqui na América do Sul, Rosa Maria – meu pai afirmou, suspirando.
— Nosso povo está sucumbindo, Santiago – minha mãe comentou, olhando fixamente para o copo de leite.
— Hoje cedo eu vi pela janela os vizinhos dilacerando um cachorro para o comerem. Foi uma cena horrível – eu relatei, desabando em lágrimas.
— Isso é horrível. O que acontece nesse país é um crime contra a humanidade. Há crianças morrendo de fome no colo de suas mães prostradas nas calçadas. Não há medicamentos nos hospitais, está tudo desmoronando sobre nossas cabeças. Nós temos que ir embora daqui para sempre, minha filha. – Meu pai me consolava. Ele era o meu herói. Nos serviu as frutas e o leite, e em seguida comeu conosco. – Só precisamos de um pouco mais de paciência. O dia da nossa partida está próximo – ele afirmou, depois de tomar mais um gole de leite.
 
***
 
Naquele momento tudo já era escasso e racionado: papel higiênico, remédio, energia elétrica e água. Os saques eram constantes nos poucos supermercados abastecidos para atender só os ricos, que podiam pagar pela fortuna que custava os produtos mais básicos. As mortes eram inevitáveis. O caos parecia ser irreversível. Pessoas famintas e desesperadas já invadiam os condomínios e casas em busca de algo para comer. Eram cenas de horror.
Aquele regime que teoricamente pregava a igualdade social era na verdade um livro apócrifo do apocalipse. Naqueles últimos meses o surto de doenças como sarna, diarreia, malária e disenteria foi intenso. Um povo sem água e sem alimento não pode sobreviver. Não havia como enterrar os mortos com decência; como os caixões custavam muito caro, as pessoas enterravam seus mortos no quintal de casa.
Nem é preciso dizer que naquela situação não havia espaço para paixões, mas mesmo assim eu amei alguém pela primeira vez. O nome dele era Endry, e é impossível esque
cer tudo o que vivemos juntos.

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quarta-feira, setembro 4, 2019 - 17:19

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