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Soltem os cavalos do meu ser

Serei eu? Ou apenas um reflexo de mim que agora sobra depois do desgaste dos anos? Ou serei realmente o eu que surge depois de destilado pela vida? Não sei, nem sei se quero saber, nem sei se quero me reeducar ou pura e simplesmente deixar viver este eu que arrebenta em mim por todos os poros como bomba interna, não quero adormecer esse eu, gosto desse eu meu, mas… a minha volta tudo me obriga a ser o eu domesticado que o mundo domesticou, não quero! Mas tudo insiste que eu devo querer ser esse eu domesticado como um cão que abana o rabo para um dono chamado sociedade, não quero e insistem que tenho que querer ser domesticado por essa sociedade que não acredito e me rodeia, como adolescente rebelde, é que como adolescente rebelde não perdi meus sonhos, e quero, quero amar, tudo todos e mais alguém, mesmo que esse alguém não exista, mesmo que seja mera caricatura de desejo surrealista, não quero calar-me mais, não quero dizer sim, sim enquanto na verdade não concordo de todo, não quero ser escravo do meu eu domesticado que leva-me apenas a um vazio que não quero preencher, desisto desse eu, não o quero, não me faz feliz, não me completa, não me preenche, quero esse eu livre, esse eu que erra, que é estúpido e parvo, esse eu que não procura, esse eu que acha, esse eu que marimba-se, esse eu que fala apenas do meu verdadeiro caminho para dias com sol mesmo que o céu esteja carregado de nuvens cinzentas, esse eu que não se arrepende de todas as parvoíces que fez, e dos momentos que todos aplaudiram por estar certinho nos eixos não guarda memória, farta-me esse eu sem sonhos ou com sonhos tão realistas que não deveriam ter o nome de sonhos, farta-me esse eu que não ousa pisar o risco e tentar atravessar a nado o rio que esta em correnteza, quero correr, sim, correr pela rua da vida, cansa-me andar ao passo dos outros, cansam-me, cansa-me a mesmice, quero mais, mais da vida, mais de tudo, quero mais do chocolate que tomo, ele não tem que ser apenas um chocolate para mim, porquê terá de ser apenas um mero chocolate enquanto ao mesmo tempo pode ser o beijo que não dei, porque? Não há razão nenhuma para não deixar a solta o louco dentro de mim, estou farto, farto super, hiper farto dessas convenções que inibem as pessoas de serem novas, serem autenticas e tem que ficar escondidas como eu fico dentro do típico pólo, ou da camisa, ou da gravata ou sei lá do quê, estou cansado de fazer a barba todas as manhãs, cansado desta mesma cadeira, destas mesmas conversas banais, ou das conversas de exibicionistas armando-se em intelectuais, destes mesmo relatórios, destes e de todos que nos prendem a numeros estatisticos, esses e todos que prendem, que impedem e amordaçam tudo que eu poderiamos ser e... não somos, estou cansado dos meus medos, mas não só os meus, dos medos de toda gente que impedem que as pessoas brilhem com toda sua capacidade de brilhar, farto dos elogios dos invejosos, farto do silêncio dos tímidos, farto disso tudo, quero mais, quero mais da vida que um simples passar por ela, não falo sequer em felicidade constante, não, não é isso, porquê também quero chorar mais, berrar mais, gritar mais, quero também rir e gargalhar mais é claro, o que me impede? Nada… ao mesmo tempo tudo! Impede-me o carro que eu ando, as roupas que visto, os amigos que tenho, as pessoas que me amam… mas… porquê preciso eu de me sentir amarrado a essas coisas todas? Porquê não posso ser livre, porquê na realidade não posso mandar a merda quem realmente desejo mandar a merda? Por nada, por tudo, porquê eu não sou assim, não sou? Será que não sou ou gastei uns quantos anos a enganar a mim mesmo dizendo que não era e a domesticar-me, por causa disso, por causa daquilo, por causa de sei lá o que e isso é o pior, não saber o porquê de ter-me domesticado tanto, o objectivo, o prémio sei lá, qualquer coisa que fosse desde que valesse a pena, por isso agora chega, estou realmente farto, estou farto de enganar a mim próprio ao chamar de educação aquilo que não passa de domesticação social, não quero mais isso, prefiro que me chamem de louco a me chamarem de inteligente, prefiro que me chamem de estúpido do que me chamem de educado, pois estou cansado de guardar dentro de mim estúpido louco com roupa de rapaz inteligente e educado, estou cansado de ter meu destino seguro por uma rédeas que por mais cuidado que tenha sempre se arrebentam por uma força maior que é a força do selvagem que esta dentro de mim, que se lixe, que soltem-se os cavalos do meu próprio ser.

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segunda-feira, setembro 1, 2008 - 16:29

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Veiga

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Re: Soltem os cavalos do meu ser

Texto bem escrito, bem enquadrado no tema!

:-)

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