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V – You gave me songs to sing

É madrugada e a tua ausência faz eco de boomerangs jogados lá fora ao frio a fazer ricochete nas paredes de quadros tribais e outros tantos sóbrios de paisagens ou jogatanas amenas de copos de tinto e nevoeiros de fumo a tolher olhares numa miscelânea própria tão própria distintiva de mim melting pot de emoções e culturas fundidas como aço inoxidável impenetrável a um primeiro olhar de relance. E ele continua a bramir palavras soltas feitas frases de sentimentos cadentes numa hipnose irreconhecível que me vai tombando assim de soslaio como quem não tem pretensões a ambições de ter ou ser ou viver emoções de lágrimas que caem no calor do momento.


You gave me songs to sing.
David é a voz mas podia ser outro qualquer mas não é. É ele. É?

 

Mas é a ti que te ouço again and again como filmes mudos de imagens em surdina a preto e branco flashs estroboscópicos a cegarem razões.

É madrugada nem sei bem se serão três quatro zumbe o relógio na cabeceira da cama que ignoro. E a tua ausência faz eco de falsetes. Como é mentirosa a ausência a distância. Estás aqui ao meu lado. Dormes. E não te sinto aqui. Deixaste de estar. Sabes quando se está sem estar ao som da respiração que não se ouve e da voz engolida no silêncio. No entanto replays de mais do mesmo. Prefiro assim prefiro-te assim ou prefiro-me assim a achar-me petulante em abandonos que na verdade não são. Não gosto de dramas. Gosto de terror e thrillers psicológicos daqueles assim ao jeito de nós feitos por medida. Não gosto de certezas e dependências da certeza por isso enceno fantasmas da tua voz enquanto dormes. E as músicas que me deste são banda sonora de nós. Ainda hoje jantámos a dois na verdade a quatro ou seriam oito? Éramos oito a fazer as contas ao espelho de rubores a iluminar a parede tremendamente vestida de branco em recortes de negro por contraste aos almofadados escarlate. Minimalista chamam-lhes eles e os outros. Mas nós sabemos que é tentativa de retratar espaços regressivos na memória. Éramos dois e ele e ela. E um espelho. Imenso. Testemunha de cumplicidades trocadas e mensagens subliminares e esconderijos debaixo da pele. Chet Baker a acompanhar o café. Curto chávena escaldada sem açúcar para mim. Cheio chávena fria sem princípio para ti.


Sem princípios ou sem princípio?
Fiquei na dúvida. Sempre fiquei com esta dúvida. Nunca te perguntei.

Imaginavas que o sorriso que contigo trocava era de puro encantamento. Era. Não é. Deixou de ser. Mas agora nesta noite em que o David me acompanha. Nos acompanha. Dormes. E sabes o eco pode ser insuportável. Apenas devolve o que lhe dás. Como a lei da vida. Dás recebes. Assim regra três simples noves fora nada. Mas hoje devolve-te a mim. Dei-te?

This are only words. Disse ele.

São. Mas as palavras adormecem. Não quero que fechem os olhos e se esfumem no frio da noite que me entra pelos poros a eriçar vaidades. Mas as palavras são fugidias escondem-se correm dormem contigo. Logo agora que estás aqui sem estar e o eco da ausência da nossa ausência corrói sensações iludidas. Porque estás. Serei eu que não estou? Toco-me. Toco-te. Estamos. Ou estivemos? Abro os olhos e teimo em guardar o dito o amor o amo o gosti o beijo o abraço a cortar respirações de suspensão no tempo que pára silêncios de sussurros na noite separados por espaços meio cheios meio vazios por encher de nós.

This are only words quando antes you gave me songs to sing. Repeat replay rewind pause.
 

Deito-me ao teu lado no teu corpo já quente de sonhos cautelosos como falhas do real de chávenas frias cafés sem princípio contra-sensos. E assim o mundo parece maior quando nos teus braços sorris ternas carícias. Aconchegos nos ecos de boomerang ao frio de noites onde a madrugada é apenas miragem de frágeis inseguranças a tremerem estados febris de filmes mudos a preto e branco em strobs hipnóticos como a vida da nossa vida fosse apenas cor e cor sem cor sem som com som de repeats a esconderem tentações perfeitas que somos nós na distância de ti aqui sem estar. Não estou. Como a lei da vida. Dás. Recebes. Deste-te?

Recebi uns dias mais tarde por telegrama:
“Vamos jantar ao escarlate minimalista das pastas a dois?”

Fomos. Ficámos. Hoje fazes mais um ano. Fazemos. E a contar pelos dedos das mãos perdemos a conta.


Noves fora nada. You gave me songs to sing. Along with you.

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terça-feira, dezembro 18, 2012 - 06:39

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