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Menina

Menina pura de alma tenra e jovem... inocente, imaculada. Sua
alma como que tela de pintor, esperando por seus contos
captados em tintas de brincar. Sua veste branca e limpa, como
que de um anjo se tratasse. Isenta de moral ou maldade,
ignorando por completo horrores humanos, alheia a nós seres
míseros.
Entro em seu quarto, esse onde enfermos são jogados e
subjugados, para seu término concluir, lugar onde vidas e sonhos
acabam.
Aquando de entrada em seu habitáculo, em mim... quão grande
degradado sentimento assolado, canto sujo, imundo, fétido e
decadente. Seu lar... cinzento e escuro, sem brisa ou aragem, sem
luz ou raio de sol, apenas... uma ténue luz emana de sua beleza, a
menina...
Em um pequeno sofá, velho e gasto, onde costuma a menina se
enrolar como a um pequeno gato, onde a menina fantasia,
adormece e sonha. Lugar esse onde a encontro... fixa-me seus
olhos afogados em brilho, que olhar tão suave e terno, seu
admirável sorriso, descansado e puro, seu olhar... jovem de
berço, seu olhar de fascínio perante novas surpresas, ainda com
todos os sonhos pela frente, seu olhar curioso e cheio de vida,
sem horrores ou medo, em mundo tão pequeno... menina tão
grande, menina...
Levanta-se... que linda... à minha frente prostrada, saída de um
irreal conto de fadas, dando-me o impossível... o prazer de
presenciar ao vivo uma personagem imaginária, vinda da mente
de uma criança, de seu mundo, sua fantasia. Estende sua mão à
minha, e pergunta “queres brincar comigo? ”.

Aquando de seu toque em minha mão, por completo seu quarto
em uma floresta encantada transforma-se, toda a sala floriu,
coloriu, magnificamente de sol raiou, abrindo seu tecto,
descobrindo uma maravilhosa tarde de primavera, de vida em
flores, de vida em verdes, de vida em sol, extasiando-me de
felicidade, contagiando-me em choro.
Brincámos ao bosque encantado, lutámos contra dragões,
monstros e orgues, refugiámo-nos em nosso castelo, como
príncipe encantado e sua donzela, na terra da fantasia, brincámos,
brincámos e brincámos, neste lugar onde todo acontece...
extasiámo-nos de sonhos... sonhos muitos...
Até que... a menina, de sua expressão cansada, agora de seu olhar
convicto, olhar adulto... apenas diz “tenho sono”. Pela sua mão
quente, frágil e delicada, arrasta-me de volta, arrasta-me de
encontro ao seu pequeno sofá “fica, protege-me, não me deixes
só, preciso de descansar um pouco”. Deita-se para dormir, fecha
seus pequenos olhos levando consigo a sua floresta encantada,
sem largar a minha mão...
De suas veias flúi, esvai-se, sua vida, sua alma, sua esperança,
que rosto tão terno tão lindo, deita-se para dormir, sem saber...
completamente alheia... de sua enfermidade, de sua evolvente
magia... deita-se para dormir... para seu último suspiro...
Como se lhe as veias tivessem rasgado, esvaindo-se em sangue, a
menina anjo, pobre menina. Que de sua alma tudo ainda para dar
e sorver. Sem deixar minha mão... em mim... sua vida fluindo,
elevando-se, e desvanecendo-se neste ar estagnado e podre, solta
e dispersa, sobe menina, menina sobe de encontro à sua
floresta.... encantada...

Boa noite... descansa em paz... menina...

Eu aqui fico, chorando por ti...
(Por todas tenras vidas desamparadas...)

Pedro Martins

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quarta-feira, abril 14, 2010 - 16:12

Ministério da Poesia :

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