Não existo senão por’gora …

Não existo senão por fora,
Não existo senão por fora,
Por dentro sou um feixe frouxo
De sensações sem forma,
Que insisto ligar do sapato à sola,
Sold’a quente tal como
Uma corrente de visgo que liga
De mim até mim, infinita.
Infinitamente me desconheço,
Quem sou e não sou agora,
Se o disfarce de dentro,
Ou o simulacro de fora,
Digo de mim a mim mesmo,
Ser o que não sou, no que
Tanta gente me olha, vê ou
Pensa ver o que sou
Senão por fora, agora, hoje,
Ou ind’agora, embora parecer
Seja nada, inda que tudo seja,
Sou do que me foi dado, um nicho,
Um ínfima parte, um tolo ou idiota,
Um tudo ao sabor da onda,
Ou ladro da minha própria
Boca, sinto um nó que ata
O dentro com o fora circuncisado,
Metade metáfora, irrealidade,
Outra a metástase do que minto,
Talvez seja ou sou, na demora,
A ilusão do parecer, a chama, a sombra,
O não, a ausência que perpassa
Breve e presa à falsa ideia, se repete
Entre o interior e o lá fora,
Entre o fora e o acabado, embora
Sinta inveja da realidade avessa,
Demonstro-me realmente
Incapaz do que outros
São, à mesa e de facto, rapaces.
Peculiar em mim a falta
De vontade, um querer miúdo
Que fede e se mede, mudo
Pela incompetência autista,
Inabilidade falaciosa
De devoto sem qualquer
Causa, falsa fama do
Que calha, sou pedinte
E esmola, invejo profundo
Os devotos de passos
Mindinhos, assim como
Os meus semi-inimigos sem crista,
Medos murados, sitiado canino
No meu feudo, assim como
Nos sonhos que não tendo
Não tenho realmente, nem medo,
Sinto inveja da realidade,
Aparentemente por não
Ter outra mais que esta,
Qual me fende, diagonal e rente,
Ponta e mola é navalha
Mata e esfola. o paradoxo
É que eu não, sou nada, pondo
De lado o que pareço agora ser,
Eu sou ess’agora …
Joel Matos (1 janeiro de 2025)
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