Serradura

Serradura

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No indindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o <> de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da <>
Pelo nosso Júlio Dantas ---
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual...

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta...

Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
--- Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil --- partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

A gritar <>...
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade...

Vou deixá-la --- decidido ---
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Mário de Sá-Carneiro

Submited by

Miércoles, Abril 1, 2009 - 00:20

Poesia Consagrada :

Sin votos aún

MariodeSaCarneiro

Imagen de MariodeSaCarneiro
Desconectado
Título: Membro
Last seen: Hace 15 años 9 semanas
Integró: 03/31/2009
Posts:
Points: 120

Add comment

Inicie sesión para enviar comentarios

other contents of MariodeSaCarneiro

Tema Título Respuestas Lecturas Último envíoordenar por icono Idioma
Fotos/Perfil Mario de Sa Carneiro 0 1.620 11/23/2010 - 23:33 Portuguese
Poesia Consagrada/General Ângulo 0 1.267 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Sete Canções de Declínio 0 1.188 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Taciturno 0 1.134 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Apoteose 0 1.262 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General 7 0 1.253 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Vislumbre 0 926 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General 16 0 1.282 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General A Queda 0 973 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Rodopio 0 1.002 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Vontade de Dormir 0 1.073 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Inter-Sonho 0 1.358 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Escavação 0 953 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Partida 0 900 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Ápice 0 951 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/Amor O amor 0 2.035 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Serradura 0 1.149 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Estátua Falsa 0 1.324 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Caranguejola 0 1.378 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Manucure 0 1.291 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Crise Lamentável 0 1.175 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General O Fantasma 0 1.231 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General El-Rei 0 1.135 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General AQUELOUTRO 0 1.345 11/19/2010 - 15:49 Portuguese
Poesia Consagrada/General Quasi 0 1.278 11/19/2010 - 15:49 Portuguese