Um trago em alto-mar

A mão trêmula incessante,
Que segura a fina labareda,
De um isqueiro flamejante,
Acende o mar de fúria,
Que se faz em longas ondas,
Na fina névoa esfumaçante.

E em quase sólido contraste,
À calmaria inconsciente,
Enquanto as ondas se quebravam,
Em grossos rostos indolentes,
Percebo, logo acima,
Na beira de uma sacada,
Onde dissipava-se a neblina,
Estranho ser empoleirado,
Como turvado corvo cinza…

Fiquei um tanto incomodado,
Acometido por um medo,
Curioso e assombrado,
Não mais tirando os olhos,
De estranho ser inusitado.

Mas a ave desgraçada,
Não movia uma só pena,
Com o vento que soprava.
Não respondia meus acenos,
Nem tampouco ali me olhara,
Fazendo assim, nada mais,
Do que só ficar parada…

Mas que pensamento tinha esta,
Com seu fixo olhar no vazio?
“Nunca mais” iria dizer-me,
Ó grande pássaro vadio?
E o que fazia tal criatura,
Encravada em escultura,
Na sacada de um navio?

É certo que na verdade,
Pela cabeça do imóvel ser,
Pensamento nenhum atravessava.
A não ser que de algum modo,
Com todas as mil certezas,
Ali realmente se encontrava…

E fitei-o por uma hora.
E o corvídeo inda parado.
Absolutamente silencioso,
Com seu semblante deserto,
Olhos inteiramente cobertos,
De um ar duvidoso,
De animal irrequieto.

Até que por fim,
Em violento ímpeto,
Que levara-me a um susto,
Levantou seu negro voo,
Com suas largas asas brutas,
E um canto em desentoo.

Distanciou-se na névoa,
Rumando em rumo incerto,
Até vagarosamente,
Sumir em mar aberto.

Talvez só um vulto afligente,
Um devaneio,
Ou escape da mente…

Pois assim como o estranho corvo,
Queria estar eu sem nenhum incômodo.
Assim como no bar, solitário,
Em cima da mesa de baralho,
Descansa um cigarro solto.

E não poderia eu,
Jogar-me a deriva,
Sem precisar pensar,
Sobre todo o monturo,
De enganos passados,
E planos futuros?

E que futuro poderia aguardar,
Por todos esses deuses rotos!
Alguém que na mesa de um bar,
Vê perdido em alto-mar,
Um solitário e triste corvo?!

Ah, dos meus vagos sonhos,
Nem lembro qual foi o mais torto…

Agora a falta que um sonho me faz,
É a mesma falta mordaz,
Que faz um séquito ao morto.
 

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Miércoles, Junio 15, 2011 - 04:44

Poesia :

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Ken Sowyer

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Comentarios

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Um trago em alto mar

Um pássaro parado no tempo, a aguardar, em contida emoção, o próximo voo.

Gostei.

 

Um abraço.

Teresa

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Um sentimento nostálgico voou

Um sentimento nostálgico voou nas asas da poesia. Lindo devaneio!

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