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A humilde melodia de amor e de dor de um apaixonado trovador

Ah, como eu queria criar uma melodia, para que todo dia eu pudesse escutar. Ouviria, ouviria, todo dia esta melodia, a fim de que eu pudesse pôr meu coração para dançar. Pois fico aqui pensando, o quanto não gastamos e criamos, tentando e tentando uma nova vida encontrar. Ah, como eu queria tornar a prosa da vida poesia, para que todo dia, todo dia, imerso em alegria, eu pudesse sair para cantar.

Mas se a alma pede o canto, o amor, a graça e o encanto; o cotidiano nos joga pelo cano, tira-nos o abano, promete a nós todo ano que, com muito afano, conquistaremos nossos planos. E assim o peito se lança, procurando em cada esquina, como uma criança traquina, a esperança quase sempre fugidia, o sonho em nossa sina, a rima e a cantina. Afinal, nem só de rima vive nosso coração, e nem só de pão, um rapagão.

Nosso espírito é um poeta preso em uma montanha, que com muita, muita sanha, ou manha, tenta se libertar. Vai para um lado, vai para outro, fugindo dos tiros que o querem furar. Enquanto isso assa uma piranha para se alimentar, já que não tem picanha para no bucho enfiar. Vê de longe a vida do rico, desejando o luxo do seu ar, mas não troca seu violão, seu forró e seu falar. Ah, como eu queria sempre acreditar que por trás de tais palavras há sempre o bem-estar!

Meus músculos estão cansados do estrupício de tanto quebrar as paredes do edifício ao lado, de empilhar pedra sobre pedra sob o poderoso sol acalorado, de escutar desaforo do chefe, aquele homem enfadado, cheio de furúnculo e mal-amado, triste e chifrado. Mas não liguem para o que falo, já que isso foi bem raso, fruto de meu estado, amuado e chateado. Pois perdi Maria-Bonita, que foi embora para sua terra, fita rosa no cabelo, aquelas curvas bem jeitosas. Por isso estou aqui na fossa, cantando o meu vazio, rimando essa joça, floreando o meu fastio.

Pergunto ao meu anjo-da-guarda se estou aqui mentindo, se devo me afogar na farra, na aguardente ou na fanfarra. Se devo sair por aí a brigar, a pisar em rabo de gato, a conversar dos fatos e atos com um psicólogo. Amo, logo sofro? Vivo, logo morro! Ai, cadê minha cachaça? Por que vivo me iludindo? Onde é que o segredo se acha? Por que a minha cabeça logo não se racha? Será que a vida mesmo não passa de um mero jogo, voar de dias embaralhados, sem quê nem para quê, sem música, rima ou melodia, onde somos, claro, o rato, que em cada buraco deste mundo apenas ouve um “vai logo, vai logo!”? Pois só em desenho animado o rato vence o gato, o amor supera o fado e a alegria detona o enfado. Estou cansado de viver, estou cansado de rimar! Estou cansado de perder, estou cansado de amar! Meu coração, que antes queria planar, hoje só quer se enterrar, cair de cara na lona, brincar de jogar mamona, fechar os olhos e fingir que a segunda não vai vir, que ela ficará fora dessa barafunda, pois é organizada demais para ir e vir em meio à profunda bagunça que é o existir do homem.

O que rima com homem, meu Deus? Ordem, desordem, acordem, amém? O que rima com ser humano? Urano, tucano, soprano, ufano? Meu avô era macho matador! Meu pai era padeiro comedor! Eu sou poeta sofredor! Como será que encontro aquilo que mata a dor? Pois até rimar é pesaroso, a gente engasga muitas vezes, entre uma vitória e alguns reveses, entre o deslize e o engodo, e só por vezes algum gozo.

Dizem que toda vida é uma batalha, onde cada um valsa ou ralha atrás daquilo que lhe valha a pena. A pena da poesia, a pena do porquê, a pena do pesar. E entre tantos “pês” e tantas penas vamos caminhando e dançando com nossos poderosos pés, rastejando ávidos por alguns fonemas, rápidos sobre o cascalho árido, lépidos sobre a grama amena, desejosos de voar tranqüilos entre as nuvens e os dilemas. Vamos pesando o mundo na balança de nosso peito, buscando arrancar do siso um sorriso bem satisfeito, inundando com gostosa poesia a prosa do nosso jeito, meio imperfeito, de levar a vida com efeito. Pois o mundo é uma enfeitada Maria-Bonita, que foge rarefeita do nosso caloroso e apertado abraço, água que apaga com desfeita o nosso fogo enfeitiçado, mas que depois disso feito, com rima ou sem rima, tosco ou perfeito, vem fervendo apaixonada, arfando o peito até em cima e toda, toda bem arrumada, para o fogoso leito do seu amoroso e adorado eleito. Até lá, para todos os efeitos, tenho minha viola nos braços, pedras para quebrar e uma vida para inventar. Quem sabe um dia eu não enlaço algum bonito e caro pássaro para me fazer amizade, tirar a solidão dessa cidade, lembrar a longínqua mocidade, cantar minha beldade, fazendo par com essa minha melodia? Quem sabe algum dia não descubra a música que transforme toda a prosa em poesia? Este que seria um grande dia! O dia em que a prosa casasse de vez com a poesia!

Ah, Maria-Bonita, desculpe a minha grande covardia! É que um poema desses não se cria todo dia! E foi só agora que percebi, no ardor dessa canção, na dor desse existir, que é o seu amor a rima rara da minha humilde melodia! Ah, é agora mesmo que vou atrás de minha benquista periquita, dando um trato no hálito aqui no meu dentista, indo garboso como um verdadeiro pugilista, riscando no papel minha infinita lista de melindrosos devaneios, carregando nos sonhos todos os seus dengosos meneios, levando nos lábios minha infinda poesia, a fim de que, quem sabe, esse apaixonado trovador possa, com todo o seu amor, reempossar o coração e a vinda de minha linda e sempre bem-vinda Maria-Bonita, a pepita de ouro do meu adorado tesouro, a aurora rosa da minha gloriosa manhã vindoura, a graciosa poesia de minha prosa de todo dia! Eis o nosso eterno desejo imorredouro, o sonho dourado além de qualquer louro, a miraculosa fantasia além de todo homem! Amém, amém e amém!

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terça-feira, dezembro 15, 2009 - 02:47

Poesia :

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marcelcervantes

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Comentários

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Re: A humilde melodia de amor e de dor de um apaixonado t...

Marcel,
Grande trovador e grande ser humano também.
Beijo
Nanda

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Re: A humilde melodia de amor e de dor de um apaixonado t...

Marcel,
Uma delícia de se ler, encontreu um excelente trabalho de alguém muito genuíno e muito gente boa.
Beijo
Nanda

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Re: A humilde melodia de amor e de dor de um apaixonado t...

Oi querida Nanda!! Valeu pelo comentário - e pelo gente boa também!!! (risos)
Um beijo bem grande e um maravilhoso ano novo para você e toda a sua família!!
Marcel

imagem de emiliafigueiredo

Re: A humilde melodia de amor e de dor de um apaixonado t...

TUA MARIA BONITA VAI CHEGAR MARCEL E NÃO VAI DEMORAR MUITO INTUIÇÃO MINHA ABRAÇO AMIGO MILA

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Re: A humilde melodia de amor e de dor de um apaixonado t...

Deus te ouça, amiga querida!! rsrsrsrs
Beijão!! :-)

imagem de mariamateus

Re: A humilde melodia de amor e de dor de um apaixonado t...

olá trovador :-)

Embora não tenha por hábito ler textos
extensos!... dou-te os meus parabéns!
Muito bom mesmo!!!

Abraço luz

voltarei... :lol:

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Re: A humilde melodia de amor e de dor de um apaixonado t...

Obrigadão mariamateus!! Valeu pelas palavras!! E, claro, seja sempre bem-vinda!! :-)
Beijos!!

imagem de cecilia

Re: A humilde melodia de amor e de dor de um apaixonado t...

Marcel,

Somos poetas de coração, de alma, de mente, de mão, de papel, somos poetas da fantasia, somos poetas da dor, poetas do desabor, poetas da poesia.
Poetas somos e não temos cura e sem alguém descobrir a cura que caia no esquecimento deste mal seremos incuráveis, não há nada que nos faça sentir melhor do que escrever, escrever até findar nossos pensamentos. Se isso é um mal sofro também.

Lindo desabafo e que encontres tua Maria-Bonita.rsrs

abç
Cecilia

imagem de marcelcervantes

Re: A humilde melodia de amor e de dor de um apaixonado t...

Olá Cecília!!
Sim, concordo com cada palavra sua!! Somos poetas de coração, de alma, da mente, de tudo!! :-)
E, no final das contas, há coisa melhor para o ser humano fazer na Terra do que criar beleza e poesia, né?? (risos)
Valeu pelos desejos!! Tomara sim que eu encontre minha Maria-Bonita!! rsrsrsrs
Abração!
Marcel

imagem de RobertoEstevesdaFonseca

Re: A humilde melodia de amor e de dor de um apaixonado t...

Beleza pura, meu amigo.

Gostei deveras.

Um abraço,
REF

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