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este foi o conto do meu fracasso no concurso novos talentos Fnac - CEM IDADE

CEM IDADE
Ou o princípio do terceiro milénio traz mesmo o Apocalipse ou anda tudo doido de livre vontade.
Tudo bem que se vive uma crise mundial económica, financeira, mas para quê fazer disso uma crise social? Para piorar as coisas?
Crimes a toda a hora. Assaltos, homicídios por assalto, homicídios passionais, mais assaltos, carjacking, mais homicídios por carjacking… Ver o noticiário é mais emocionante que qualquer das séries de C.S.I. ou do género. Os cenários de guerra urbana fazem inveja a Ridley Scott e os enredos dos crimes podem ser inspiração para Jerry Bruckmeyer. E tudo isto no meu pacifico país cheio de sol.
A culpa é do governo, diz o povo. A culpa é dos emigrantes, diz a direita radical. A culpa é da pobreza gerada pela crise, dizem os observadores economistas. Sempre houve maus governos, emigrantes e gente pobre e isto nunca foi assim. E eu quero lá saber de quem é a culpa. Quero é que pare. Estou grávida do meu quarto filho e quero o melhor dos mundos para ele (ou ela) e para os outros três que já cá estão.
Nos dos anos noventa quando nasceu a minha primogénita Mariana, o mundo resolveu dar-me uma chapada na cara com o início de uma guerra sem fim contra o Iraque, transmitida em direto para todo o mundo com imagens inéditas de riscos de luz verde a atravessar o deserto. Acho que toda a gente via aquelas imagens como se fosse mais um filme, com novos efeitos especiais. Espantados, poucos devem ter parado para ponderar sobre as vidas que se perdiam.
Quando estava grávida de cinco meses da minha segunda, a Matilde resolveram destruir as Torres Gémeas em Nova Iorque e lançar-me num estado de angústia de “ oh meu Deus, em que mundo vou trazer o meu Bebé?” falava-se do fim do mundo, da terceira guerra mundial, só faltavam os marcianos da Guerra dos Mundos de Herbert George Wells e o relato fabuloso de Orson Wells, mas com imagens de alta definição e ao vivo. Mas aqui já se parou para pensar nas vidas de ocidentais perdidas num ataque terrorista sem sentido.
Quando foi do meu Martim, em 2007, foi um ano de angústias porque de repente roubavam criancinhas em hotéis do Algarve e não se falava de outra coisa no mundo inteiro. E ainda hoje se fala. E se rebusca. Em volta de pais que deixam crianças sozinhas em casa, policias demasiados zelosos afastados da investigação, ambas as partes escreveram livros, mas a criança não aparecia. Nem uma pista.
As lágrimas que chorei, três vezes três. Nos momentos mais bonitos da minha vida o telejornal massacrava-me diariamente com dor mais forte que o parto. Dor e medo do futuro. Eu, que apregoava aos quatro ventos que todos e quaisquer momentos são momentos para ter um filho. Não interessa se já se tem o carro queremos, a casa como queremos, o curso que queremos, se uma criança quer nascer temos o dever de ser o veículo. Não interessa a condição material. Dizia uma velhota que conheci: “um filho trás sempre um pão debaixo do braço”, ou seja a divina providência encarregar-se-ia de dar uma boa ajuda. E eu acredito nisso. Acredito que colocar um filho no mundo, com a educação encaminhada no bem, torna o mundo mais bonito e com mais condições de se tornar um mundo melhor. Eu planto flores no mundo: tinho filhos.
Agora esta crise, que leva pessoas ao suicídio por amar as famílias que não conseguem alimentar, que leva pessoas a matar as famílias por não se conseguirem alimentar. Parecem tempos da Idade Média ou anteriores, onde se esperava sempre pelo aparecimento se saqueadores bárbaros prontos a destruir aldeias inteiras pelo saque de algum ouro ou colheitas. Durante a noite é comum que alguém entre em casa de um incauto incrédulo, durante o sono. Na melhor das hipóteses leva-lhe o portátil, algum dinheiro e documentos e outros pequenos, mas valiosos, equipamentos. Mas não é incomum o assalto evoluir para a violação ou mesmo o assassinato.
E eu grávida outra vez. É mesmo preciso ter muita fé, nem sequer sou rica ou de classe média alta. Tenho mesmo dúvidas de ser de classe média. Tenho uns pais fantásticos e uns sogros fabulosos que partilham connosco o que dispõem. Principalmente apoio moral e fé.
Outro filho nesta altura? É comum ouvir, diretamente, este comentário. Encolho os ombros. É um filho desejado, por mim, pelo pai, pelos irmãos, pelos avós. É mais uma flor que planto neste jardim desertificado de almas boas. Este também vai mudar o mundo para melhor.
Estou de baixa de gravidez de risco, tenho quarenta e cinco anos e o médico não quer arriscar acidentes. Faltam dois meses para o bebé nascer, optamos por não saber o sexo desta vez, queremos o fator surpresa. Queremos escolher o nome no dia do nascimento e não cair no erro de fazer um enxoval cor-de-rosa ou azul, temos verdes amarelos laranjas e brancos. Vai ser emocionante.
Vou com estes pensamentos, distraída, a dar o meu passeio matinal para ativar a circulação, depois de ter levado o Martim à escola. Quase em casa, numa rua principal, mesmo ao pé de uma paragem de autocarro, um automóvel estaciona rente ao passeio. Saí um homem novo bem vestido e com bom aspeto, olha minha direção. Contorna o carro e dirige-se a mim, ou não, talvez vá ao multibanco.
- Onde tens andado? Dois dias sem ir a casa. Estou morto de preocupação. - Diz o homem, parece olhar para mim. Olho para trás, é seguramente para alguém que está atrás de mim. Quando olho para a frente já ele me agarra no antebraço direito, e me puxa para dentro do carro, delicadamente coloca-me a mão na barriga e pergunta como está o bebé. Fração de segundos, algo está mal. Tento racionalizar com o senhor que está equivocado, não sou a pessoa que procura. Ele segura-me o antebraço com firmeza, uma mulher sai de dentro do carro.
- Mana, tem calma, vai correr tudo bem. - Ela dirige-se a mim com as mãos postas á frente do peito com as palmas viradas para baixo. Sou filha única!
Krav Maga. Não há tempo para racionalizar, isto é um ataque. Defender e
contra-atacar. Tenho quarenta e cinco anos, uma barriga de setes meses mas fisicamente ainda me sinto ágil. O meu cérebro torna-se num quartzo estimulado pela energia elétrica e conta todos os nano-segundos. Obrigo o meu corpo a relaxar todos os músculos. Ele afrouxa ligeiramente a pressão no antebraço e encaminha-me para o carro, ela aproxima-se. É hora. Reajo, elevando o cotovelo do braço direito, aproveitando ele ter minimizado a pressão, atinjo-o diretamente no queixo com violência e ao mesmo tempo que ele me solta, com a mão esquerda agarro os cabelos dela na parte de trás da cabeça e jogo-a de forma a bater com ela na porta direita aberta do veiculo. Ela cai, ele larga-me, fujo e grito por ajuda. Ninguém. Ninguém me identifica como vitima. Sou uma grávida que fugiu de casa e a família está a ajudar e eu ainda os ataco. Ou então não sou ninguém. Todos se metem na sua vidinha e evitam olhar. Corro, mais uns metros, a porta do meu prédio. Chapo a mão em todas as campainhas, segundos: Quem é? Quem é?
-Vizinhas ajudem-me… - ele agarra-me pelos ombros e encosta-me á porta, virado para mim, mas de rabo alçado para fora. Já me tinha topado e percebeu que eu não teria o mínimo escrúpulo em lhe atingir os testículos. Em vez de tentar escapulir, enfio as minhas mãos entre os braços dele, seguro-lhe a nuca com as duas mãos e puxo-lhe a cabeça na minha direção, contra a parede mesmo ao meu lado. Ele larga-me para agarrar o nariz partido e eu fujo, outra vez, sem destino, e grito e ninguém presta atenção. Apenas se afastam para me deixar passar, e afastam-se também para a deixar passar a ela, que me persegue depois de recuperar da cabeçada na porta do carro. Mais nova, mais ágil, sem barriga de sete meses, alcança-me facilmente. Sinto uma picada nas costas. Continuo a correr, sem sentir as pernas. Deixo de ver as pessoas que não me veem. Sinto que algo me bate na cara ou que a minha cara bate em algo. Abro um pouco os olhos, que eu nem sabia estarem fechados, e reconheço as formas das pedras da calçada da minha rua. Fui derrotada na minha própria arena.
Acordo numa cama desconhecida. Quase acordo.
-Ela está a acordar - ouço a voz de uma miúda. Ouço passos na minha direção.
Abro definitivamente os olhos. A rodear-me estão quatro mulheres grávidas com batas brancas. Acredito que fui salva no último minuto e levada para o hospital. O hospital cheira a terra húmida mas é um hospital. Sento-me na cama. Não é um hospital, é uma sala com paredes de terra, cerca de quarenta metros quadrados, cinco camas de hospital com lençóis e cobertores brancos, mas não é um hospital. As quatro mulheres olham para mim: - Estás bem? Sentes o bebé? Queres água?
Quatro barrigas de olhos tristes  preocupam-se comigo. O que é isto? Onde estamos?
- Não faço ideia. - Inicia uma grande barriga. - Sou a Sónia. Fui a primeira a chegar, destas que estamos aqui. Já houve outras, mas quando começaram com contrações levaram-nas. Nunca soube o fim desta história. Estou aqui á quatro meses, acho eu. Costumo fazer um risco na parede por cada dia que passa, mas não sei se me lembrei todos os dias. Um dia chegava do trabalho, apareceu uma ambulância, os paramédicos deitaram-me na maca, meteram-me na ambulância e acordei aqui.
Estou aqui há quanto tempo? Pergunto eu. Cheguei ontem depois do almoço, a dormir. Estamos a dia 21 de setembro, informo eu.
A Sónia fica pálida. Chora.
- A data prevista para nascer o bebé é hoje, segundo a primeira ecografia que fiz lá fora. Mas não sinto nada.
As outras três abraçam-na, eu seguro-lhe na mão.
- Sou a Catarina – partilhei, e partilhei o sucedido do dia anterior – e estou de sete meses do meu quarto filho. O que se passa aqui? O que querem de nós e principalmente como saímos daqui?
Outra, mais nova, estende-me a mão.
- Rita. Estou aqui há um mês. Estou de oito meses, é um menino. Adormeci em casa, acordei aqui. Não sei porquê, nem onde estamos, nem acredito que haja forma de sair daqui. Temos uma única porta, a sala tem dez metros de altura e é coberta por uma claraboia para podermos apanhar luz e abrem-na para apanharmos ar todos os dias.
- Sou a Helena, - uma outra estende-me a mão - dão-nos comida saudável, vitaminas, ácido fólico e ferro e toda a assistência médica. Desde que tapes a cara com o barrete de pano preto. Toma, este é o teu.
Estende-me uma espécie de saco de pano preto pesado e explica-me que sempre que soar o alerta todas o deveremos colocar na cabeça e deitar nas respetivas camas, só deveremos falar se estritamente necessário e sobre o nosso estado. Eles ameaçaram que lançam na sala um gaz letal se alguma retirar as vendas. Elas ficaram encarregues de me informar das regras.
A Diana é uma menina, cerca de vinte anos, tinha chegado há uma semana e não fala e pouco come. Ainda está em choque. Tem uma barriguinha de cerca de cinco meses.
Soa o alarme, uma sirene com luz vermelha voa pela sala de paredes castanhas de terra. Sigo o exemplo das outras e enfio o saco preto na cabeça, não vejo realmente nada. Mas ouço. Ouço passos, duas ou três pessoas, as rodas de um carrinho, tabuleiros de alumino a serem pousados na mesa de fórmica que estava no meio da sala. Sinto o cheiro da comida. Ouço as pessoas saírem da sala, a porta a fechar, um sinal sonoro rouco que indica que podemos tirar as vendas.
Levanto-me da cama e dirijo-me para a mesa com as outras. Também tenho uma bata branca vestida, sem roupa interior. Espero que elas se sentem para saber qual é o meu lugar. A comida tem muito bom aspeto. Provo. É muito boa. Ao lado do prato um grande copo com sumo natural de manga e um copinho com comprimidos coloridos lá dentro. Olhei para as outras.
-Podes tomar. São as vitaminas. - Diz a Rita, a Helena anui e a Sónia está com o ar mais enjoado do mundo
-Sónia, estás bem? - Pergunto.
-Acho que estou com contrações, vou deitar-me, já como.
Eu como esgalgada e tomo os comprimidos, reconheci os de ácido fólico e ferro, e por algum motivo sei que esta gente nos quer vivas e saudáveis. Mas porquê?
Através da claraboia passa a luz do sol e abrem os vidros para deixar entrar o ar. A minha mente divaga. Quando tempo demoraria até os fecharem outra vez? Teria tempo de desmontar os manípulos das roldanas de articulação das camas? Cinco camas, dez manípulos. Dez metros de altura até aos vidros abertos da claraboia, paredes de terra. Se encosta-se a mesa á parede ganhava oitenta centímetros, teria de colocar o primeiro manípulo a cerca de trinta e cinco centímetros acima da mesa e assim sucessivamente, em forma de pegas de escalada, bem enterradas na parede para que conseguíssemos colocar ora um pé ora uma mão. Se tivesse sucesso e fizesse uma corda com lençóis, quando chega-se lá acima tinha a possibilidade de ajudar as outras mais pesadas.
- Helena, Rita, ajudem-me. Comecem a desenroscar esses manípulos aos pés das camas. Quanto tempo aquilo se mantem aberto?
- Se não chover, até á hora do jantar. - O que pensas fazer? Eles vêm cá de duas em duas horas para refeições de reforço.
Certo. Ia só fazer a primeira parte, desmontar os manípulos, depois tinha duas horas para enfia-los na parede e desaparecíamos. Para onde?
- Alguém sabe, geograficamente, onde estamos? - Nenhuma sabe. Aliás chegamos à conclusão que podemos estar em qualquer lado, porque tínhamos sidos raptadas em pontos diferentes do país. Sónia de Bragança, Helena de Setúbal, eu de Lisboa, Rita de Castelo-Branco e Diana só Deus sabe, contínua na cama a chorar. Retiramos os manípulos e escondemos dentro dos lençóis da minha cama. Segundo elas os lençóis eram mudados todas as manhãs, enquanto as grávidas encapuçadas eram encaminhadas para a higiene diária num balneário a trinta passos dali, e isso já tinha ocorrido hoje enquanto eu dormia. Olho para a minha mão e vejo a nodoa negra nas costas da mão causada certamente por um cateter que me alimentou nas últimas vinte e quatro horas. Olho em volta, à procura de camaras de vigilância, deveria tê-lo feito mais cedo antes de começarmos a desmontar as camas. A única tecnologia que existe na sala está ao lado de uma cadeira. Um cinto de CTG. O cabo entra pela parede. Sónia explica-me que todos os dias se tem de sentar ali, colocar o cinto e apertar um botão, depois uma luz do cinto acende e ela pode retira-lo.  As outras não fazem porque ainda não estão no último mês de gestação. Tétrico. Quem mantem sequestradas mulher grávidas durante meses, até darem à luz, nestas condições mas fornecendo todos os meios para que se mantenham saudáveis, boa comida, medicamentos, ar fresco, luz do sol?
Os meus pensamentos são interrompidos por Sónia. Rebentaram-lhe as águas. Temos de os chamar. Não! Pede ela, não. O alarme soou outra vez. Enfiei-lhe o capuz e corri para a minha cama e enfiei o meu. Mais passos, as rodas do carrinho, os tabuleiros a serem substituídos, os passos saem a porta fecha-se, o sinal sonoro rouco que indica que podemos tirar as vendas. Corro para a cama de Sónia, a barriga dela está tensa como a concha de uma tartaruga, depois passa e ela respira. Depois volta a ficar rija. É o segundo filho dela. Pela minha experiência isto pode ser rápido. Ela geme de boca fechada e contorce-se na cama. É preciso chamar alguém, as contrações estão com intervalos de cerca de quatro minutos e já lhe rebentaram as águas. Ela suplica que não. Tento amenizar a dor esfregando-lhe os rins. As outras olham assustadas. A Diana aproxima-se segura-lhe na mão e diz, DIZ, que vai tudo correr bem. Agora não podia preocupar-me com a tentativa de sair dali. Não a poderia levar e não a poderia deixar para trás. As contrações diminuem no espaço de tempo e aumentam de intensidade. Dois minutos entre cada uma, o suor escorre-lhe por todos os poros, os gemidos passam a gritos abafados pela boca fecha e pela almofada enfiada dentro da boca.
- Não posso mais. Tenho vontade de fazer cocó.
Eu sei o que isso é. Não há tempo para nada. Deito-a de barriga para cima e levanto a bata. A vagina dela está dilatada como uma meloa, escorre algum sangue. Dobro-lhe as pernas e coloco-lhe os calcanhares ao pé das nádegas.
-Segura os tornozelos com as mãos, mantem as pernas abertas respira no intervalo das contrações e faz força só quando eu disser. - Digo eu confiante, mas sem a mínima noção do que fazer. A minha experiência de parto era parir, nunca estive do lado de fora. E o início do espetáculo não é bonito.
Começa a aparecer uma coisa preta, suja de branco. Cabelo. A cabeça do bebé. Coloco a mão em cima da barriga dela, sinto a barriga a contrair e mando: Força agora! Força, força, força, descansa… outra vez força. A cabeça do bebé saiu, estava azul, de olhos abertos. O cordão em volta do pescoço. Para! Sem pensar se sei o que estou a fazer seguro com a mão esquerda a cabeça do bebé e com os dedos indicador e médio da mão direita enfio entre o cordão e o pescoço do bebé. Ao mesmo tempo que empurro a cabeça ligeiramente para dentro puxo o cordão para passar por cima da cabeça,
ajudo-o a rodar um pouco e gritei: Força agora, toda a força. A expulsão é rápida, violenta e linda. Nasce uma menina. Respira. Choraminga o primeiro grito nas minhas mãos. A pele branca, suave e uma linda boquinha vermelha. Cabelo farto, negro e espetado. Coloco-a nas mãos da mãe ainda com o cordão enfiado pelo interior do corpo da mãe, agarrado á placenta que ainda não foi expulsa. Tapo-as e choro. Todas choramos.
Soa de novo a sirene com luz vermelha. Voamos para os nossos lugares e encapuchamos-mos, não me esqueço de encapuchar a Sónia. Os passos, as rodas do carrinho, os tabuleiros, os passos, o choro do bebé.
- Esta já pariu, merda. - Diz uma voz estranha de mulher. - Chama a doutora. E vocês, suas vacas parideiras, que ninguém se mexa, que ninguém dê um pio.
O rebuliço é total. Muitos passos no chão de terra coberto com linóleo, muitas vozes, português e uma língua que desconheço. Gritos da Sónia, choro de bebé. Só muito depois de ter acabado o barulho, de ter desaparecido os passos, as vozes, os gritos da Sónia, o choro do bebé e da porta se ter fechado, retiro lentamente o capucho. Mantenho-me deitada, a olhar o teto, a claraboia está fechada, anoiteceu. Levanto-me, as outras ouvem os meus movimentos e levantam-se também. A cama da Sónia está vazia e feita de lavado. Umas horas antes aconteceu ali um milagre, eu vi. Ficamos em silêncio. Na mesa tabuleiros com o jantar, aguardam por nós, quatro tabuleiros e um lugar vazio. Comemos pouco e sem falar. Antes de me voltar a deitar, retiro os manípulos de dentro da minha cama e escondo-os debaixo da cama que era da Sónia. Não posso desistir. A minha cama será, supostamente, mudada amanhã e não podem descobrir os manípulos.
Soa o alarme que me acorda. Mecanicamente, coloco o capucho e mantenho-me deitada. Sinto que me agarram no braço, como a indicar-me para me levantar,
levanto-me e retiram-me a bata. Sinto que estou nua, só com o saco na cabeça. Sou encaminhada por um corredor e sinto que as outras também estão ali. O solo muda debaixo dos meus pés e encontro um chão áspero. Soa o sinal rouco e tiro o capuz. Eu e as outras estamos num balneário, com casa de banho, duches e lavatórios, tudo imaculadamente limpo, chão antiderrapante. Vou logo sentar-me numa sanita, fazer necessidades numa arrastadeira não é nada agradável. Tomo um longo duche com gel de banho desinfetante, água deliciosamente morna, lavo os dentes durante todo o tempo do mundo e visto uma bata branca lavada e a cheirar a desinfetante. Soa a sirene e os azulejos do balneário são iluminados intermitentemente por uma luz azul. Já com os sacos na cabeça somos encaminhadas pelo mesmo caminho, o mesmo número de passos até ao cheiro de terra batida misturado com cheiro a leite quente com cereais. Detesto cereais. Somos largadas no meio da sala, os passos afastam-se e tiramos os sacos da cabeça ao som do alarme rouco.
-Despachem-se a comer. Preciso da mesa. Vamos sair daqui.
As outras olham para mim de boca aberta. Perguntam-me se tenho amor á vida. Tenho amor á vida e á vida que carrego dentro de mim. Não sei quem é esta gente que nos mantem aqui, o que querem, nem o que nos espera, nem o que aconteceu à Sónia ou ao bebé dela. Mas sei que temos de dar tudo para sair daqui e eu tenho um plano. E ter um plano é melhor que não ter esperança. Elas comem apressadas e eu esforço-me para engolir alguns cereais em açorda de leite. Encostamos a mesa a uma parede e peço a Helena para ir buscar os manípulos das camas. Subo para cima da mesa e começo a enfiar o primeiro manípulo do lado direito. A tarefa não era fácil, a parede era muito rija e seca, parecia pedra. Opto por enroscar em vez de forçar a entrada na parede. Obtenho algum sucesso, entram alguns centímetros pela parede mas vai demorar mais do que eu imaginava. E depois tenho de contar com o tempo em que o alarme soaria outra vez, e tinha que ter fé que as pessoas que cá viessem estivessem compenetradas apenas na sua tarefa de substituir tabuleiros e arrastadeiras e não dessem conta de manípulos enfiados pela parede. No quarto manípulo já me encontro com os pés fora da mesa. O pé direito num manípulo, o pé esquerdo noutro a, mão esquerda noutro e a mão direita, sozinha a tentar enroscar o quarto. E a barriga não ajuda nada. Sinto que o tempo acabou. Com cuidado, desço e arrumamos tudo como estava. O dia está escuro, tanto melhor, os manípulos não estão em destaque. Hora do almoço. A rotina do costume, barretes, passos, rodas, tabuleiros, silêncio… o silêncio não faz parte da rotina!
- Isto foi obra da karateca, - ouço uma que berra. Agarra-me violentamente pelo braço, levanta-me da cama e aperta-me o capuz pela parte de trás, apertando-o contra a minha cara. Sou encaminhada, não sei para onde, e finalmente tiram-me o saco da cabeça. Estou amarrada numa cama de partos. Com destreza alguém de bata e touca verde com uma mascara cirúrgica coloca-me um cateter na mão esquerda, que liga a um balão de soro. Outra enche uma seringa com o líquido de uma ampola com o rótulo Oxitocina, e injeta-o no soro. Em breve sinto as contrações, cada vez mais fortes. É cedo para o bebé nascer. Fazem uma ecografia, dois quilos e duzentas, pulmões formados. Chega uma incubadora. E chega a hora. Força. Força impossível de controlar. Nasce o menino, louro como um alemão. Não, é meu, deem-mo. Ele chora, Eu choro.
- Bom dia, dona Catarina.- Trémula, levo a mão á barriga e só sinto uma massa mole e encarquilhada. O meu bebé? – Mãe, não me chames bebé, tenho mais de setenta anos.
Uma senhora aproxima-se de mim e faz-me uma festa. Mariana estás velhota. Sorrio. Peço o meu computador, preciso escrever um sonho antes que me esqueça.
- Mãe, o teu computador não existe há vinte anos, usa o espectral. E entrega-me um aparelho do tamanho e da espessura dos antigos cartões de crédito. Pois, lembro-me como aquilo funciona, falamos para lá e aparece um ecrã holográfico com o texto que dissermos. Se nos enganarmos selecionamos no holograma a parte que queremos emendar e repetimos. Muito funcional, mas sem o som da poesia dos teclados, sem o gozo do concurso de destreza manual quando queremos escrever á pressa uma ideia que nos surge. Lembro-me que tenho cem anos, olho para as minhas mãos e percebo que já não revelariam muita destreza em cima de um teclado. Graças a Deus pelo futuro que se tornou presente. Como quem não quer a coisa, pergunto pelos irmãos.
A neta da Matilde nasceu esta madrugada, o Martim está a comemorar a reforma no Brasil, e o Ângelo está no céu. Começo a chorar.
- Oh mãe, então! Brincamos sempre desta maneira porque o Ângelo é piloto de astronaves. - Aviões? Pergunto eu, - Não mãe, não se diz aviões há trinta anos, são naves.
O meu filho é astronauta. A Mariana explicou que não é astronauta, porque só faz voos domésticos, sobe pouco acima da órbitra terrestre e leva passageiros para todo o mundo à velocidade de um estalar de dedos.
Volto a chorar. Não me lembro do Ângelo. Ou lembro? O me aconteceu?
- Não te lembras, mãe? Escreves-te um livro a contar a história. Ainda me custa a acreditar que te salvaste e conseguiste salvar o mano, e as outras. Sabes às vezes é melhor esquecer e nisso a idade é nossa amiga. Tenta lembrar-te apenas dos momentos felizes, mas se quiseres recordar o que passaste lê o teu próprio livro. Mas toma cuidado. É muito angustiante, está escrito no presente do indicativo, como se estivesse a acontecer no momento. Mas acho que tu aguentas. Sorri.
Afinal não precisava de escrever o sonho que não sonhei, relembrei. Não foi um sonho, é uma memória desvanecida de uma velha.

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quinta-feira, julho 5, 2012 - 08:53

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Filomena Iria

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Comentários

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Emoções fortes

Bem, sem dúvida é um conto de emoções fortes. O início em estilo crónica deixou-me desarmado e fui apanhado de surpresa pela acção que se seguiu. Gostei do final, da sua mensagem de esperança. Atulmente, como a narradora, todos nós encaramos o futuro com preocupação mas ele vai sempre acontecer, vai estar à nossa espera.

imagem de Filomena Iria

obrigada pelas tuas palavras Rafael

Aqui estarei, hoje e no futuro, a escrever sobre o que me der na gana sem me preocupar em vencer concursos. existem mensagens a ser transmitidas. fico tão feliz que tenhas gostado e que tenhas Sentido. essa é a minha principal preocupação.
Abraços
Filomena Iria

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É claro que ganhar um

É claro que ganhar um concurso faz sempre subir o ego, mas não é caso para parar. Enquanto houver algo dentro de nós a pedir para sair cá para fora há que continuar a escrever e a espalhar as palavras ao vento. Com tantas pessoas por este mundo fora vai haver sempre pelo menos uma outra pessoa que se identifica com o que escrevemos, e isso é suficiente para continuarmos.

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peço a vossa critica

este foi o conto que enviei ao Concurso novos talentos Fnac. não fui finalista. adorava a vossa opinião sincera. todas as criticas valerão mais que três letrados com o nome júri. um abraço de quem sente o fracasso.
Filomena Iria

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