CONCURSOS:

Edite o seu Livro! A corpos editora edita todos os géneros literários. Clique aqui.
Quer editar o seu livro de Poesia?  Clique aqui.
Procuram-se modelos para as nossas capas! Clique aqui.
Procuram-se atores e atrizes! Clique aqui.

 

Portugal

Portugal

Maior do que nós, simples mortais, este gigante
foi da glória dum povo o semideus radiante.
Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,
seu torrão dilatou, inóspito montado,
numa pátria... E que pátria! A mais formosa e linda
que ondas do mar e luz do luar viram ainda!
Campos claros de milho moço e trigo loiro;
hortas a rir; vergéis noivando em frutos de oiro;
trilos de rouxinóis; revoadas de andorinhas;
nos vinhedos, pombais: nos montes, ermidinhas;
gados nédios; colinas brancas olorosas;
cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas;
selvas fundas, nevados píncaros, outeiros
de olivais; por nogais, frautas de pegureiros;
rios, noras gemendo, azenhas nas levadas;
eiras de sonho, grutas de génios e de fadas:
riso, abundância, amor, concórdia, Juventude:
e entre a harmonia virgiliana um povo rude,
um povo montanhês e heróico à beira-mar,
sob a graça de Deus a cantar e a lavrar!
Pátria feita lavrando e batalhando: aldeias
conchegadinhas sempre ao torreão de ameias.
Cada vila um castelo. As cidades defesas
por muralhas, bastiões, barbacãs, fortalezas;
e, a dar fé, a dar vigor, a dar o alento,
grimpas de catedrais, zimbórios de convento,
campanários de igreja humilde, erguendo à luz,
num abraço infinito, os dois braços da cruz!
E ele, o herói imortal duma empresa tamanha,
em seu tuguriozinho alegre na montanha
simples vivia – paz grandiosa, augusta e mansa! -,
sob o burel o arnês, junto do arado a lança.
Ao pálido esplendor do ocaso na arribana,
di-lo-íeis, sentado à porta da choupana,
ermitão misterioso, extático vidente,
olhos no mar, a olhar sonambolicamente...
«Águas sem fim! Ondas sem fim! Que mundos novos
de estranhas plantas e animais, de estranhos povos,
ilhas verdes além... para além dessa bruma,
diademadas de aurora, embaladas de espuma!
Oh, quem fora, através de ventos e procelas,
numa barca ligeira, ao vento abrindo as velas,
a demandar as ilhas de oiro fulgurantes,
onde sonham anões, onde vivem gigantes,
onde há topázios e esmeraldas a granel,
noites de Olimpo e beijos de âmbar e de mel!»
E cismava, e cismava... As nuvens eram frotas,
navegando em silêncio a paragens ignotas...
– «Ir com elas...Fugir...Fugir!...» Ûa manhã,
louco, machado em punho, a golpes de titã,
abateu, impiedoso, o roble familiar,
há mil anos guardando o colmo do seu lar.
Fez do tronco num dia uma barca veleira,
um anjo à proa, a cruz de Cristo na bandeira...
Manhã de heróis... levantou ferro... e, visionário,
sobre as águas de Deus foi cumprir seu fadário.
Multidões acudindo ululavam de espanto.
Velhos de barbas centenárias, rosto em pranto,
braços hirtos de dor, chamavam-no... Jamais!
Não voltaria mais! Oh! Jamais! Nunca mais!
E a barquinha, galgando a vastidão imensa,
ia como encantada e levada suspensa
para a quimera astral, a músicas de Orfeus:
o seu rumo era a luz; seu piloto era Deus!
Anos depois, volvia à mesma praia enfim
uma galera de oiro e ébano e marfim,
atulhando, a estoirar, o profundo porão
diamantes de Golconda e rubins de Ceilão!

Guerra Junqueiro

Submited by

terça-feira, abril 7, 2009 - 23:36

Poesia Consagrada :

No votes yet

GuerraJunqueiro

imagem de GuerraJunqueiro
Offline
Título: Membro
Última vez online: há 15 anos 26 semanas
Membro desde: 04/07/2009
Conteúdos:
Pontos: 117

Add comment

Se logue para poder enviar comentários

other contents of GuerraJunqueiro

Tópico Título Respostas Views Last Postícone de ordenação Língua
Fotos/ - Guerra Junqueiro 0 1.414 11/24/2010 - 00:37 Português
Poesia Consagrada/Geral Fiel 0 1.113 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral Como se faz um Monstro 0 1.325 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral Aos Simples 0 1.064 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral Parasitas 0 1.190 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral O Papão 0 928 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral Canção Perdida 0 1.093 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral A Moleirinha 0 1.667 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Dedicado Oração ao pão 0 1.150 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral O dinheiro de São Pedro 0 922 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral Calembur 0 1.469 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral Em Viagem 0 917 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral Carta a F. 0 1.095 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral Adoração 0 1.002 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral Portugal 0 1.028 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral Regresso ao Lar 0 953 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral A Benção da Locomotiva 0 1.305 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral Fome no Ceará 0 1.015 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral A Lágrima 0 1.102 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral Apelo 0 938 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral A Torre de Babel ou a porra do Soriano 0 1.072 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Amor Baptismo de Amor 0 1.913 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Aforismo Quando a alma... 0 1.394 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral O Melro 0 1.114 11/19/2010 - 16:49 Português
Poesia Consagrada/Geral Vendo-a Sorrir 0 1.119 11/19/2010 - 16:49 Português