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Anton Tchekhov - A Gaivota

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Como está aqui no campo, sem o narcótico da fama e da lisonja, sente-se maçada, irritada.

Ela o que deseja é que a deixem viver a vida, amar, usar blusas de cores vivas, e eu sempre aqui, com os meus vinte e cinco anos a lembrarem-lhe constantemente que já não é nenhuma jovem. Quando eu não ando por perto, ela só tem trinta e dois anos. Mas se estou ao pé dela, tem mais dez, e é por isso que me odeia.

O teatro é uma perfeita rotina imbuída de puro convencionalismo. Quando a cortina sobe, deixa à nossa vista um espaço delimitado por três paredes, iluminado por uma luz artificial, e vemos todos esses artistas sublimes, sacerdotes e sacerdotisas de uma arte sagrada, a imitarem como é que se come, como é que se bebe, se namora, passeia e veste o casaco. Com cenas vulgaríssimas e com frases ocas, põem-se a cozinhar uma moral de uso doméstico, bem ajeitadinha, pequenina, fácil de entender. Afinal servem-nos sempre o mesmo prato de mil e uma maneiras, e eu, por mim, fujo a sete pés, como o Maupassant, espavorido com a vulgaridade da Torre Eiffel, que lhe atrofiava os miolos. 

Imagina a situação mais absurda e aflitiva do que esta: ela recebia em casa todas as celebridades, actores, escritores - e eu ali, no meio dessa gente, uma nulidade - eles, a tolerarem-me apenas por eu ser filho dela. Afinal quem sou eu? Sou o quê? (…)E aí tens. Quando todos aqueles actores e escritores, que lhe enchiam a sala, me concediam algum vislumbre de benévola atenção, o que eu sentia era que estavam simplesmente a avaliar qual o grau da minha insignificância - imaginava o que estariam a pensar -, e invadia-me uma humilhação profunda.

A vida não tem de ser reproduzida como é, nem como deveria ser. É a vida que vemos em sonho que nós temos de reproduzir.

Milhares de séculos foram, entretanto, passando nesta desolada terra, sem um único vivente, e a pobre Lua acende em vão a sua lanterna. Esta campina, já não desperta com os gritos das gralhas, e os ralos já não cantam a sombra das tílias. O frio, o frio, o frio. O vazio, o vazio, o vazio. Terrível, terrível, terrível! Os corpos de todas as criaturas vivas desapareceram, feitos pó, e a matéria eterna transformou-os em pedras, água, nuvens. As almas uniram-se numa só alma, e essa alma única e una do mundo sou eu... Eu...! Tenho em mim a alma de Alexandre Magno, a de César, a de Shakespeare e a de Napoleão, e a alma da mais miserável sanguessuga. Em mim se fundiram a consciência dos seres humanos e os instintos das bestas. De todos me relembro, de todos, todos e, no meu próprio ser, eu vivo de novo a vida de cada um e a de todos. Estou só. E uma vez apenas, de cem em cem anos, abro a minha boca para falar, e a minha voz ressoa melancólica neste lugar ermo e desolado, e ninguém a ouve… Vós, ó pálidos clarões, não me ouvis… As águas estagnadas criam-vos, ao amanhecer, e vagueais, então, até ser dia claro, sem pensamento nem vontade, sem um frémito de vida. Temendo que a vida uma vez mais brote em vós, o Diabo, o progenitor da eterna matéria, momento a momento em vós engendra, tal como nas pedras e na água, uma troca contínua de átomos, e assim ficais, em permanente mudança, para sempre. Tão-só e unicamente, o espírito permanece, no inteiro Universo - constante e imutável. Tal como um prisioneiro que foi lançado a um poço vazio e profundo, ignoro onde estou e o que me espera. É-me revelado apenas que na luta tenaz e cruel contra o Diabo, principio das forças materiais, eu estou destinada à vitória - então a matéria e o espírito unir-se-ão, numa maravilhosa harmonia, de que advirá o Reino da Vontade Universal. Tudo isto, no entanto, há-de ser lento, pouco a pouco, no decurso de uma longa, longuíssima sucessão de milénios, quando a Lua e a fulgente Sirius e a própria Terra estiverem já tornadas pó… E até que venha esse tempo, só nos resta o horror, o horror. ( Surgem dois pontos vermelhos). Eis que se aproxima o meu tão poderoso inimigo, o Diabo. Vejo-lhe os olhos, vermelhos, medonhos…(…) Sem a humanidade, ele aborrece-se…

A obra de arte tem sempre a obrigação de exprimir uma ideia verdadeiramente significativa. Só é realmente belo o que é relevante.(…) Mas só se deve pintar o que é importante e eterno.(…) Ainda outra coisa. Na obra de arte, tem de haver sempre um pensamento claro e bem definido. Tem de saber para que é que se está a escrever. Se enveredar por um caminho cheio de pitoresco mas sem objectivo, perdemos o rumo e somos aniquilados pelo seu próprio talento.

Pois muito bem, eu tenho sido uma pessoa com uma vida muito cheia e variada, bem vivido, e sinto-me satisfeito por isso. Mas se alguma vez experimentasse a elevação dos artistas na actividade da criação, parece-me que acabaria por desprezar este meu invó1ucro material e tudo o que lhe diz respeito. Levantaria voo da Terra, para subir às alturas, tão longe quanto me fosse possível.

Quando não sabem o que nos hão-de dizer mais, as pessoas vêm sempre com essa: “Ah, a juventude, a juventude”…

(…)E sigo sempre uma regra: não me preocupar com o futuro. Não me lembro nunca da morte, nem da velhice.

O vinho e o tabaco apoderam-se da personalidade de um indivíduo. Com um cigarro e um copo de vodka, deixa de ser o Piotr Nikolaevich e passa a ser o Piotr Nikolaevich mais outra pessoa. A sua personalidade, o seu eu esboroam-se, e começa até a ver-se como uma terceira pessoa - um ele.

Querer tratar-se aos sessenta anos e ter pena de si próprio por não se ter gozado a juventude, é pura e simples leviandade.

As pessoas sempre nos saem todas umas maçadoras…

Eu julgava que as pessoas célebres eram altivas e inacessíveis. Julgava que sentiam desprezo pelo vulgo, e que a fama e o brilho do seu nome lhes bastava para desforra de todos os que põem a nobreza do nascimento e a riqueza acima de tudo. Mas estes, aqui, choram, pescam, jogam às cartas, riem, irritam-se - como qualquer outra pessoa…

Quando chego ao fim do meu trabalho, ou me meto num teatro ou vou para a pesca. Ao menos, nessa altura, eu deveria poder esquecer e repousar um pouco - mas não! oh maravilha! - uma autêntica bala de canhão começa às voltas no meu cérebro, a sacudi-lo. É um novo tema para uma história, que me empurra para a minha secretária, e aí tenho eu, uma vez mais, de escrever, escrever. É e será sempre assim, não encontro a paz em mim próprio, sinto que estou a consumir a minha vida. Por umas gotas de mel, que eu destilo para outros, roubo o pólen das minhas mais belas flores, arranco-as e espezinho as raizes. Não lhe parece que estou louco? Julga que os meus conhecidos e amigos íntimos me tratam como a uma pessoa normal? “O que é que tu andas a escrever?”, perguntam-me. “O que é que nos vais oferecer proximamente?” Sempre assim, sempre, mas quer parecer-me que toda essa atenção, da parte dos meus conhecidos, o constante elogio, um permanente encantamento, são uma manobra enganadora. Estão a iludir-me, como é costume fazer-se aos doentes. E até receio, por vezes, que estejam ali, atrás das minhas costas, prontos para saltarem e me meterem no manicómio. Na minha mocidade - e foram esses os meus melhores anos - , quando principiei, escrever era um sofrimento sem fim. Um pequeno escritor, quanto mais reveses tem, mais se considera inábil, incomodativo, supérfluo. Tem os nervos sempre em franja, mas não desiste de gravitar à volta da gente da literatura e das artes - ignorado e menosprezado por todos, sempre receoso de olhar de frente para alguém, como um jogador inveterado que não tem um tostão.

NINA- Mas não sente nunca êxtase e felicidade, tanto nos momentos de inspiração como durante o próprio trabalho de criação? Com certeza que sente.
TRIGORIN- Sim, sinto prazer quando escrevo. E quando estou a ver as provas, também… mas quando a obra sai do prelo, detesto aquilo tudo. Vejo que é errado, nem devia ter sido escrito. Nessas alturas, sinto-me irritável, com a alma doente… (Ri) E o público lê, e depois diz: “Sim, é uma coisa bonita, talentosa… mas ainda a grande distância de Tolstoi.” Ou então: “É uma obra excelente, mas inferior aos Pais e Filhos do Turgueniev.” E será sempre assim, até à hora da minha morte, bonito e talentoso, bonito e talentoso – só isso. E depois de eu morrer, essas pessoas ainda vão passar pela minha sepultura e dizer: “Aqui jaz Trigorin, um bom escritor, mas inferior a Turgueniev.”

(…) Amo o meu país e o seu povo. Sinto que se for realmente um escritor, então devo falar do povo e de todas as suas dores, do seu futuro, falar da Ciência, dos direitos do homem, e por aí fora… E falo disso tudo, com urgência, pressionam-me, de todos os lados, criticam-me, e eu numa roda viva, como uma raposa acossada pelos cães. Vejo perfeitamente que tanto a vida como a Ciência não param nunca, avançam sempre, sempre para a frente. E eu acabo por ficar para trás, sempre atrasado, como um camponês que perdeu o comboio. Em suma, só tenho jeito bastante para paisagista, e que o resto é falso - falso até à medula.

Ocorreu-me agora mesmo um tema… (Mete o bloco de notas na algibeira) Dá para um conto. Uma rapariga que passou a vida à beira de um lago. Assim, como você. Essa rapariga ama o lago, como uma gaivota, e é feliz e livre como uma gaivota. Um homem passa, olha para ela, e como não tem mais nada que fazer, destrói-a - como aquela gaivota morta ali.

As pessoas pretensiosas, mas sem talento, acabam por não fazer mais nada senão maldizer os que são realmente dotados de talento! Que linda forma de se consolarem.

Ah, o amor de uma rapariga assim, tão encantadora, poética, e que me transporta para o reino dos sonhos - só um amor como este, e mais nenhum, pode trazer a alegria na terra! Eu nunca tinha experimentado este amor…

As pessoas de idade são iguais às crianças pequenas.

As mulheres querem apenas uma única coisa: um olhar de carinho.

A vida tem sempre um fim. Este é o decreto da Natureza.

O medo da morte é um sentimento animal…, que temos de aprender a reprimir. Só aqueles que crêem  que há vida eterna é que têm consciência do medo da morte, e o que os apavora são os seus próprios pecados.

É tão fácil, filosofar no papel, e é tão difícil passar à prática.

Pois, cada vez estou mais convencido de que não é uma questão de formas, velhas ou novas, mas pura e simplesmente, daquilo que se escreve, sem pensar sequer na forma, o que se escreve vindo do fundo da alma, livremente.

(…) os comerciantes mais cultivados, não me vão largar com galantarias. A vida é sórdida!

Agora sei, percebi que no nosso trabalho - e tanto faz estar no palco como escrever - o que é importante não é ter êxito, nem tão-pouco glória, nem nada do que eu sonhava - o que é importante é conseguir aguentar. Saber levar a cruz, e ter fé. Eu tenho fé, e assim não me dói tanto. Quando penso na minha vocação, já não tenho medo da vida.

(Ouve-se um tiro. Todos se sobressaltam)  (…)Não foi nada. Algum frasco que rebentou, na minha mala. Não se assuste. (Sai, pela porta da direita, volta decorrido meio minuto) Foi o que eu pensei. Estoirou um frasco de éter.

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quarta-feira, fevereiro 13, 2013 - 20:31

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