CONCURSOS:

Edite o seu Livro! A corpos editora edita todos os géneros literários. Clique aqui.
Quer editar o seu livro de Poesia?  Clique aqui.
Procuram-se modelos para as nossas capas! Clique aqui.
Procuram-se atores e atrizes! Clique aqui.

 

Verdes São as Folhas

Ainda há uma semana, estavam nuas, esqueléticas na sua forma em ramos esguios e abandonados pela cor que a Primavera lhes empresta. Olho-as de baixo, para que vejam através da sua altivez, a minha pequenez. O chão, esse está sempre de colo aberto, á mínima escoriação do tempo, mergulhando na secagem que levita entre as pedras e os canteiros dos jardins. Sofre de tantas penas esta sôfrega manhã de Primavera, e eu caminho assim, meio desatinada pela beira da estrada. Há um céu que me indica as horas, mas de nada vale saber se há horas certas nesta cálida manhã. Assim me encontro também, entre a nudez da alma, e coloração de um verde esmeralda, que em determinada parte do meu corpo, se prepara para esculpir os sonhos, enaltecendo os olhares que amortecem as correntes do rio, que enquanto espera, traz sempre novos ventos, novas investidas no cais, aparentando nobreza e fortalecendo as tábuas do passadiço. Sozinha, abandono-me ao tempo em que me cansava de contar as estrelas lá na minha aldeia:
- Há o “nascer do sete-estrelo”, que corresponde à Úrsula Menor e/ou Maior, que quando se avista por detrás do monte, será hora de encaminhar as águas;
- Há o “por da Estrela” que é a hora exacta na madrugada em que ela se vai, orientando o seguimento de outras águas, que descem da serra;
- Há a contagem das horas, através dos raios solares, que ao embater no morro escarpado pelo tempo, é também hora de acrescentar mais umas horas às águas que passam;
- Há o "meio dia do sol", que é quando o sol atinge um ponto no firmamento, que é uma e meia da tarde- formas de contagem do tempo, pelos antigos, para se calcular os movimentos que aquele pedaço de terra dava à volta do sol.

Se eu pudesse continuar a viver por entre quatro paredes, seria o mesmo que viver enclausurada numa cidade que me entorna sobre os pés, um pouco da calidez do mundo acompanhada das chuvas ácidas. O horizonte é vasto e eu por aqui, de solstício em solstício, sem saber para onde encaminhar os meus passos. Dava-te tudo de mim se mo pedisses, se me não rejeitasses, se me não encandeasses com esse teu brilho meio atordoado de uma vida gasta por sujeições do destino. De que adianta esmiuçares a minha dor, a minha permanência, se só serás eu, quando souberes ser tu? Podes até me virar do avesso, mas só encontrarás o refugo daquilo que fui, porque a cada momento me renovo com o nascimento de novas flores, para vestir as palavras que escrevo, que serão alimento do meu corpo e vestimenta que me tape a alma. Há trapos, que como indumentária gasta, se apresentam à limpidez das águas do rio, prestes a vestir os mendigos que avisto nas noites de Sábado, nesta cidade que vista de fora, é um carreiro estreito por entre vielas de escárnio. Continuo à espera de te encontrar nestes caminhos, mas nunca te avisto, a não ser quando já nada tenho para te oferecer, e eu queria tanto poder levar-te e misturar-me contigo, e voltar a ser poeira das estrelas em direcção ao sol.

Apesar das diferenças de todos os momentos casados por excelência com a obliquidade de uma esfera gasta, que me volteia a consciência, entro sempre pela porta da frente que é o términos de uma vida, onde operam em grande escala, todos os sentidos, contendo a conjugação necessária que fará surgir o verbo iniciático de um Deus Maior. Sobrevivo sempre a novos temas, mas este meu corpo avesso a tudo o que o tempo traz, deu um volte-face desagregando as noites e purificando os dias, do mais puro néctar que a vida tem para lhe dar. Caminhamos assim contrariamente à emancipação da única verdade que nos faz ser, seres invulgares e diferenciados na terra que nos revolverá às cinzas e de lá nos fará renascer únicos na forma. Só assim poderemos encetar novos voos por entre os dedos das nossas mãos, porque são eles, um reflexo laminar do tempo que nos resta. Verdes são as folhas e nelas me deito até à próxima investida do Outono.

(A Voz do Silêncio)

Submited by

quarta-feira, abril 14, 2010 - 09:52

Prosas :

No votes yet

ÔNIX

imagem de ÔNIX
Offline
Título: Membro
Última vez online: há 8 anos 18 semanas
Membro desde: 03/26/2008
Conteúdos:
Pontos: 4027

Comentários

imagem de danyfilipa

Re: Verdes São as Folhas

sempre fico enternecida com as suas palavras ao som de sempre boas melodias que embelezam ainda mais a leitura :-)

"Dava-te tudo de mim se mo pedisses, se me não rejeitasses, se me não encandeasses com esse teu brilho meio atordoado de uma vida gasta por sujeições do destino. - quando se ama, está se dispost a dar tudo...

"De que adianta esmiuçares a minha dor, a minha permanência, se só serás eu, quando souberes ser tu?" - muito boa esta frase...para pensar...

adorei imenso ler :-)

imagem de ÔNIX

Re: Verdes São as Folhas Para Danyfilipa

Dany

è sempre com prazer que te recebo.

Beijos

Matilde D'ônix

imagem de Mefistus

Re: Verdes São as Folhas

Sozinha, abandono-me ao tempo em que me cansava de contar as estrelas lá na minha aldeia:

Longo, mas tão belo, tão terra a terra, que se le e relê com prazer.
Gosto bastante dessa tua "voz" forte e sonora em momentos de incrivel prosa.
Muito bom Onix

imagem de ÔNIX

Re: Verdes São as Folhas Para Mefistus

Olá Rogério

Muito prazer me dá a tua visita

beijos

Add comment

Se logue para poder enviar comentários

other contents of ÔNIX

Tópico Título Respostas Views Last Postícone de ordenação Língua
Poesia/Meditação Acordar da Manhã 2 1.569 03/22/2018 - 22:16 Português
Poesia/Amor Céu 2 1.625 03/14/2018 - 22:25 Português
Poesia/Meditação Vida lá fora 5 1.251 03/14/2018 - 22:24 Português
Poesia/Dedicado Saudações 2 1.937 03/01/2018 - 11:13 Português
Fotos/Corpos Rendas 1 2.957 03/27/2016 - 03:20 Português
Poesia/Meditação Selváticas Emoções 0 1.166 01/17/2012 - 23:36 Português
Poesia/Meditação Talvez 2 1.361 01/17/2012 - 21:35 Português
Poesia/Meditação Jardins Aquáticos 1 1.260 01/04/2012 - 23:07 Português
Poesia/Meditação Eram rosas os meus olhos 1 1.938 12/27/2011 - 23:48 Português
Poesia/Meditação Verdes lembranças 0 1.773 12/15/2011 - 15:50 Português
Poesia/Meditação Se eu fosse só eu 0 1.538 12/09/2011 - 11:19 Português
Poesia/Meditação Bruma Intemporal 1 1.610 12/07/2011 - 02:03 Português
Poesia/Meditação Eras 1 1.688 12/06/2011 - 21:49 Português
Poesia/Meditação Vão-se os Modos, Esvai-se o Tempo 0 1.083 12/01/2011 - 21:29 Português
Poesia/Meditação Pensamento invulgar 1 1.874 11/30/2011 - 00:21 Português
Poesia/Meditação Dor 0 4.121 11/24/2011 - 13:45 Português
Poesia/Meditação Extraviados 6 2.885 11/23/2011 - 12:12 Português
Poesia/Meditação Bom Dia 1 2.463 09/29/2011 - 22:16 Português
Poesia/Tristeza Um nada somente 1 1.585 09/14/2011 - 12:23 Português
Prosas/Outros Sol da Manhã 0 1.545 09/12/2011 - 10:24 Português
Poesia/Amor Nu 0 1.860 09/07/2011 - 11:07 Português
Poesia/Amor Tu 2 1.385 08/30/2011 - 01:57 Português
Poesia/Meditação Só Alma 1 1.340 08/26/2011 - 10:23 Português
Poesia/Meditação O Avesso de Mim 2 1.393 08/23/2011 - 22:26 Português
Poesia/Meditação Grãos D'Ouro 3 1.687 08/23/2011 - 22:22 Português