Morfol(h)ogia...

Realço o olhar a dobrar, em lápis sombreados,
o escuro do mundo pertence-me e convence-me a ser noite...
Porque se movem os olhos fechados enquanto dormimos?
Porque os ouvimos correr encerrados num quarto escuro
a embater nas paredes das pálpebras?
Talvez porque o sonho nunca descanse e não se canse de te procurar...
Doem-me os olhos...
Estão cansados de percorrer os mesmos caminhos todas as noites,
estão magoados dos açoites das pestanas que os tentam chamar à razão,
mas os olhos não ouvem,
são olhos, não são ouvidos, nem são ouvidos
porque também não falam...
A esclera é um estranho céu branco à volta da terra das íris,
num manto em nuvens de pranto prestes a explodir...
E existem relâmpagos de derrames de cansaço...
Porque choram os olhos fechados enquanto estamos a dormir?
Que parte triste da nossa alma visitam enquanto dormitam os nossos sentidos de alerta?
Que porta encontram aberta?
Em que caves e sótãos se perdem entre tralhas de recordações,
porque regressam, às vezes, cheios de arranhões
e tantas outras, cheios de brilho?
O que sabem os nossos olhos que nunca nos contam?

Inês Dunas
Libris Scripta Est

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Domingo, Junio 27, 2010 - 22:22

Poesia :

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Comentarios

Imagen de Dianinha

Re: Morfol(h)ogia...

"Poucos são aqueles que vêem com seus próprios olhos e sentem com seus próprios corações."
Albert Einstein

E tu, sim tu, és dessas poucas pessoas...
Amei!

Beijo enorme...

Imagen de LilaMarques

Re: Morfol(h)ogia...

Libris, teu texto traz a marca registrada da tua escrita impecável! Além disso, premia-nos com reflexões deliciosas.
Neste texto, percebo uma ponta de melancolia, trazida com beleza, com muita destreza.
Quanto aos olhos, aqui, na minha “leiguice”, penso que reflete o nosso peito!
Um grande beijo em ti.
Lila.

Imagen de Sterea

Re: Morfol(h)ogia...

A tua escrita sabe de mim o que eu própria não sei... e releio, tentando encontrar em que ponto me encontras, em que aresta me defines, em que vértice me descreves...
Gosto de te ler. É como se lesse o que ainda não escrevi, porque o que a minha alma alcança nem sempre está ao alcance de palavras minhas...

Beijinho.

Imagen de mariacarla

Re: Morfol(h)ogia...

Que poema lindo, Inês!

É como se os olhos ganhassem vida própria durante o sono e fossem eles próprios à procura dos nossos sonhos. Na realização dos mesmos, sozinhos... e os quisessem entregar pela manhã.

E ora brilham e ora choram...

Momento maravilhoso, profundo e único. Vou levar e guardar.

Beijinho

Carla

Imagen de Anonymous

Re: Morfol(h)ogia...

Gostei imenso do teu poema, Inês.
Quanta beleza!
Gosto da tua tendência para a introspecção já
que são esses poemas que nos podem ensinar algo.
Um beijo e parabéns por mais um belo poema
Vóny Ferreira

Imagen de analyra

Re: Morfol(h)ogia...

Lindo amiga, muito bom mesmo. Gostei muito.

A meu ver os olhos, me unem ao mundo, por isso tanta tristeza e desassossego neles, queria as vezes simplesmente fecha-los e esquecer-me neles.
beijos.

Imagen de deborabenvenuti

Re: Morfol(h)ogia...

Muito bem elaborado. Os olhos são o espelho da alma e enquanto dormimos,eles vagueiam pelos caminhos escuros do nosso inconsiente e vêem coisas que nem sempre nos podem contar,mas se pudessem,com certeza,nos contariam. Mas quando acordam com o brilho no olhar é porque vivenciaram momentos tão sublimes que é difícil disfarçar. Muito bom.Beijo

Imagen de Lopez

Re: Morfol(h)ogia...

O mesmo ainda não sei responder...mas te digo que nossos poemas são meio primos hoje, no céu branco...Mas do teu gostei imensamente. bj

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