Morfol(h)ogia...

Realço o olhar a dobrar, em lápis sombreados,
o escuro do mundo pertence-me e convence-me a ser noite...
Porque se movem os olhos fechados enquanto dormimos?
Porque os ouvimos correr encerrados num quarto escuro
a embater nas paredes das pálpebras?
Talvez porque o sonho nunca descanse e não se canse de te procurar...
Doem-me os olhos...
Estão cansados de percorrer os mesmos caminhos todas as noites,
estão magoados dos açoites das pestanas que os tentam chamar à razão,
mas os olhos não ouvem,
são olhos, não são ouvidos, nem são ouvidos
porque também não falam...
A esclera é um estranho céu branco à volta da terra das íris,
num manto em nuvens de pranto prestes a explodir...
E existem relâmpagos de derrames de cansaço...
Porque choram os olhos fechados enquanto estamos a dormir?
Que parte triste da nossa alma visitam enquanto dormitam os nossos sentidos de alerta?
Que porta encontram aberta?
Em que caves e sótãos se perdem entre tralhas de recordações,
porque regressam, às vezes, cheios de arranhões
e tantas outras, cheios de brilho?
O que sabem os nossos olhos que nunca nos contam?

Inês Dunas
Libris Scripta Est

Submited by

Domingo, Junio 27, 2010 - 22:22

Poesia :

Sin votos aún

Librisscriptaest

Imagen de Librisscriptaest
Desconectado
Título: Moderador Prosa
Last seen: Hace 12 años 49 semanas
Integró: 12/09/2009
Posts:
Points: 2710

Comentarios

Imagen de Dianinha

Re: Morfol(h)ogia...

"Poucos são aqueles que vêem com seus próprios olhos e sentem com seus próprios corações."
Albert Einstein

E tu, sim tu, és dessas poucas pessoas...
Amei!

Beijo enorme...

Imagen de LilaMarques

Re: Morfol(h)ogia...

Libris, teu texto traz a marca registrada da tua escrita impecável! Além disso, premia-nos com reflexões deliciosas.
Neste texto, percebo uma ponta de melancolia, trazida com beleza, com muita destreza.
Quanto aos olhos, aqui, na minha “leiguice”, penso que reflete o nosso peito!
Um grande beijo em ti.
Lila.

Imagen de Sterea

Re: Morfol(h)ogia...

A tua escrita sabe de mim o que eu própria não sei... e releio, tentando encontrar em que ponto me encontras, em que aresta me defines, em que vértice me descreves...
Gosto de te ler. É como se lesse o que ainda não escrevi, porque o que a minha alma alcança nem sempre está ao alcance de palavras minhas...

Beijinho.

Imagen de mariacarla

Re: Morfol(h)ogia...

Que poema lindo, Inês!

É como se os olhos ganhassem vida própria durante o sono e fossem eles próprios à procura dos nossos sonhos. Na realização dos mesmos, sozinhos... e os quisessem entregar pela manhã.

E ora brilham e ora choram...

Momento maravilhoso, profundo e único. Vou levar e guardar.

Beijinho

Carla

Imagen de Anonymous

Re: Morfol(h)ogia...

Gostei imenso do teu poema, Inês.
Quanta beleza!
Gosto da tua tendência para a introspecção já
que são esses poemas que nos podem ensinar algo.
Um beijo e parabéns por mais um belo poema
Vóny Ferreira

Imagen de analyra

Re: Morfol(h)ogia...

Lindo amiga, muito bom mesmo. Gostei muito.

A meu ver os olhos, me unem ao mundo, por isso tanta tristeza e desassossego neles, queria as vezes simplesmente fecha-los e esquecer-me neles.
beijos.

Imagen de deborabenvenuti

Re: Morfol(h)ogia...

Muito bem elaborado. Os olhos são o espelho da alma e enquanto dormimos,eles vagueiam pelos caminhos escuros do nosso inconsiente e vêem coisas que nem sempre nos podem contar,mas se pudessem,com certeza,nos contariam. Mas quando acordam com o brilho no olhar é porque vivenciaram momentos tão sublimes que é difícil disfarçar. Muito bom.Beijo

Imagen de Lopez

Re: Morfol(h)ogia...

O mesmo ainda não sei responder...mas te digo que nossos poemas são meio primos hoje, no céu branco...Mas do teu gostei imensamente. bj

Add comment

Inicie sesión para enviar comentarios

other contents of Librisscriptaest

Tema Título Respuestas Lecturas Último envíoordenar por icono Idioma
Poesia/Tristeza Quimeras... 2 6.659 06/27/2012 - 16:00 Portuguese
Poesia/General Presa no transito numa sexta à noite... 2 4.172 04/12/2012 - 17:23 Portuguese
Poesia/Dedicada Santa Apolónia ou Campanhã... 2 3.266 04/06/2012 - 20:28 Portuguese
Prosas/Otros Gotas sólidas de gaz... 0 3.373 04/05/2012 - 19:00 Portuguese
Poesia/General Salinas pluviais... 1 3.639 01/26/2012 - 15:29 Portuguese
Prosas/Otros Relicário... 0 3.962 01/25/2012 - 13:23 Portuguese
Poesia/General A covardia das nuvens... 0 4.346 01/05/2012 - 20:58 Portuguese
Poesia/Dedicada Arco-Iris... 0 4.669 12/28/2011 - 19:33 Portuguese
Poesia/Amor A (O) que sabe o amor? 0 4.400 12/19/2011 - 12:11 Portuguese
Poesia/General Chuva ácida... 1 3.621 12/13/2011 - 02:22 Portuguese
Poesia/General Xeque-Mate... 2 3.841 12/09/2011 - 19:32 Portuguese
Prosas/Otros Maré da meia tarde... 0 3.833 12/06/2011 - 01:13 Portuguese
Poesia/Meditación Cair da folha... 4 4.645 12/05/2011 - 00:15 Portuguese
Poesia/Desilusión Cegueira... 0 4.008 11/30/2011 - 16:31 Portuguese
Poesia/General Pedestais... 0 4.292 11/24/2011 - 18:14 Portuguese
Poesia/Dedicada A primeira Primavera... 1 4.239 11/16/2011 - 01:03 Portuguese
Poesia/General Vicissitudes... 2 4.611 11/16/2011 - 00:57 Portuguese
Poesia/General As intermitências da vida... 1 4.467 10/24/2011 - 22:09 Portuguese
Poesia/Dedicada O silêncio é de ouro... 4 3.500 10/20/2011 - 16:56 Portuguese
Poesia/General As 4 estações de Vivaldi... 4 4.890 10/11/2011 - 12:24 Portuguese
Poesia/General Contrações (In)voluntárias... 0 4.125 10/03/2011 - 19:10 Portuguese
Poesia/General Adeus o que é de Deus... 0 4.022 09/27/2011 - 08:56 Portuguese
Poesia/General Limite 2 5.582 09/22/2011 - 22:32 Portuguese
Poesia/General Quem nunca fomos... 0 4.542 09/15/2011 - 09:33 Portuguese
Poesia/General Antes da palavra... 1 5.237 09/08/2011 - 19:27 Portuguese