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Está a chover, leva chapéu...

Vesti a gabardina da minha protecção...
Por baixo do sintético impermeável,
não há chuva de fragilidades que me molhe...
Nem nuvem de sentimentos que me apanhe desprevenida
num dos estranhos acasos da vida...
Ao longe,
ouço, em surdina,
os sussurros burros do meu coração,
e pego num esquelético guarda-chuva sem pano,
que mais parece um pára-raios invertido...
Porque não sou capaz de fechar de vez,
os braços dos sonhos,
com a simplicidade com que fecho este velho guarda-chuva?
E teimo em saltar botões e casas da gabardina
para deixar entrar salpicos de emoções?
Porque saio com chinelos de enfiar no dedo,
em vez de galochas,
se sei que vou enfiar os pés nas poças?
E a agua entra sedenta e fresca
triunfante de me lavar a pele
e eu descubro que a gabardina encolhe,
fica pequenina
e é feita de papel...
E eu gosto que a chuva me molhe,
mas não confesso...
A minha protecção é um rasto quarto minguante,
num quarto sem portas, nem janelas e de telhado desdentado...
E os sonhos olham-me, riem-se, molham-me,
ganham-me, como ganharam tantas vezes o troféu do céu do meu sentir...
E eu...
Deixo-me ir...
Exausta de lutar, farta de gritar...
A gabardina diminuta luta comigo,
num abrigo claustrofóbico,
as varetas do chapéu, contorcem-se e tentam arranhar-me a cara
e o meu coração dispara em cada pingo de chuva que me toca...
E a gabardina morde-me e arde-me...
E eu insisto enquanto aguento,
mas o tempo de Inverno provoca-me terno...
E eu aceito-o dentro do peito...
Dispo-me, num baptismo de nudez integral,
intimo e pessoal...
Ajoelho-me...
De cabelos molhados, escorrendo pelos seios
cheios de amor, castigados pela dor...
E já não minto, sei o que sinto...
A agua das poças é tão morna...
A agua da chuva é tão fresca
e eu nunca gostei de gabardinas...

Inês Dunas
Libris Scripta Est

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segunda-feira, julho 12, 2010 - 09:27

Poesia :

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Librisscriptaest

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Comentários

imagem de Sterea

Re: Está a chover, leva chapéu...

nem é só de mútua admiração que se trata, então... é um pouco e um tanto mais, é a impressão que me fica de que conheço essa chuva fértil, essa gabardina porosa, esse guarda-chuva que não guarda nudezes... é a certeza de que o que escreve me fertiliza.
E gosto.

Beijo, dos meus.

imagem de marialds

Re: Está a chover, leva chapéu...

Lindo dissertar poético por horas um sonho por horas um real.
Uma mistura em dose certa, neste poema.
Perfeito.

imagem de Nanda

Re: Está a chover, leva chapéu...

Inês,
É deslumbrante a tua escrita. Um poema cheio de sensualidade.
Beijinhos
Nanda

imagem de Obscuramente

Re: Está a chover, leva chapéu...

Aceitas se um perfeito desconhecido quiser colocar-te debaixo do seu guarda-chuva por mera e descomprometida bondade...?

;)

Gostei muito do teu retrato de cabelos molhados e frescura libertadora...

Beijo.

imagem de Angelo

Re: Está a chover, leva chapéu...

Cara amiga, os teus poemas são lindos, todos trazem uma mensagem que entre linhas podemos retirar.
Foi bom ler este como é sempre os que escreves.
Um enorme beijo do tamanho do mundo
Melo

imagem de mariacarla

Re: Está a chover, leva chapéu...

Que luta, amiga!
Que poema lindo de sentir o deixar entrar as emoções rendendo-nos ao inevitável.
Gostei muito deste poema, mesmo muito.

Beijinho
Carla

imagem de robsondesouza

Re: Está a chover, leva chapéu...

E a esta chuva rende-se graças!

Sou um dos teus fãs número 1!

Abraços, Robson!

imagem de Outro

Re: Está a chover, leva chapéu...

Tão lindo Desinibida Inês.!!!
Gostei muito!!
Há uma singular liberdade quando nos entregamos às
palavras, acções, sem que as associemos ao predefinido significado das mesmas.

"E teimo em saltar botões e casas da gabardina
para deixar entrar salpicos de emoções?"

Quem sou eu para dizer que é bom ou mau?
Mas acho-me no direito de gostar.
E gostei muito.
Parabens!

imagem de PMPM

Re: Está a chover, leva chapéu...

Genial e demagogo! Algo, que já me habituei a encontrar na Libri.

Gostei particularmente deste, pela introspecção da personagem, que deixou de mentir a si própria após uma exaustiva luta. Quase que suei neste confronto interior, (frenético?) Assolado em calor p'lo esforço claustrofóbico, mesmo estando encharcado pela chuva fresca.

Um abraço “em ti”!

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