Saudade

Como me perco no passado, por olhares de quando te conhecia por inteiro. De verso, de inverso, de topo, de fundo… toda a tua pessoa, ali, humana, mulher e parceira dos mais íntimos segredos e das mais vivas partilhas.

Como era um delírio de deleite percorrer os teus campos e entrar nas tuas muralhas, sem necessidade de credenciais e regulamentos de passagem…

Como foi maior a felicidade de conquistar a torre de menagem e as palpitantes e sensíveis comunicações da tua urbe.

Que grande encontro foi o saber-me perdido por todo o teu desejo e sem vontade de regressar à pátria.

Quão profundo foi o respirar do pensamento pelos cristalinos ares da imaginação e da fantasia, tomados sofregamente pelo teu mundo mágico… tão disperso, condimentado e colorido…

Que magnificência de existir e adormecer contaminado por todo o amor que em ti e por ti criei… aquecido num sol perene que nem no sonho da noite apagava.

E despertar no passar dos dias. O sol sempre a irradiar… porém, com o brilho do ardor a esforçar-se, repentinamente, por progredir no céu mágico do teu mundo, que passou a encolher-se como algodão-doce. Doce que desvanece de açúcar de pura cana para adoçante, oxidado pelos novos ares, poluídos não se sabe bem por que causas. As cores que se reduzem na retina ferida por maleita incerta. O aperto da recessão que reprime a panóplia de condimentos para o essencial sal.
O mundo refreia o curso e, em cambalhota, decide-se a girar ao contrário, ouve-se a música em tom rebobinado.

Como uma estrela cadente, a audácia da borboleta desapareceu. Encasulou-se novamente. Regressa à condição de crisálida. E eu que a vi descerrar-se como flor, tão bela, tão viçosa, tão ambiciosa… tão prometedora. Saudade…

Já não me passeio pelos teus cantos sem vigia ou alertas sobre a boa e a próprio conduta (obsoleta). Já não posso ser quem sou quando olho o futuro do alto da tua torre. Já não sou senhor dos sonhos; sou servil à tua vontade. E eu que recebi um salvo-conduto para explorar os teus domínios. Saudade…

Os campos em pousio. As culturas adiadas. O sol que se fatiga mas não consegue fazer germinar as volúpias idas. E eu que já soltei os meus cavalos sobre as nuvens e colhi morangos em ventos de chantilli… Saudade!!!!!!!!

Acudam, que morro com a cristalização em memória dos meus mais queridos sabores do fogo que em ti me acalenta…

Andarilhus “(ºvº)”
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Viernes, Marzo 14, 2008 - 22:32

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Re: Saudade

Gostei muito de ler esta saudade tão sentida.

Imagen de Henrique

Re: Saudade

(...)Como era um delírio de deleite percorrer os teus campos e entrar nas tuas muralhas, sem necessidade de credenciais e regulamentos de passagem…! Os cavalos soltos nas nuves e morangos colhidos em ventos de chantili são magnificência de existir com panóplias de bons sentimentos!!! Bom poema! Abraço

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