morte

morte com letra minúscula. Pequena. Daquelas mortes que se morrem aos poucos. Que valem muito. Que valem tudo. Mas de que nada valem. Quantas mortes pode um homem morrer, pergunto.
Conhecem-se tantas mortes, de tanta gente, tantas. Morre-se aos poucos. Morrem-se as pessoas em nós e nós nas pessoas. A morte gasta-se, pergunto. Vai-se gastando. Vai nos gastando.
Morre-se; morreu jovem quando partiu da terra para a guerra. morreu e fez-se homem. morreu quando os pais morreram e lhe levaram uma parte com eles. morreu quando o filho saiu de casa contra a revolução e foi para o estrangeiro. Por cada vez que voltava morria mais um pouco. Morriam ambos. morreu a esposa, senhora já de idade, como ele, e lhe morreu mais um grande pedaço quando viu que o seu marido já não acordava. Com ele morreu um pedaço da esposa, do filho no estrangeiro, e da filha que já tinha morrido tantas outras vezes como o irmão. Teve um filho. Filho único. De um pai que morreu ao selar a carta de despedida quando abalou. Que morreu dois anos e voltou. Que lhes morreu um tanto; à mãe e ao filho, que morreram sem aviso. A mãe que morreu umas vezes e umas vezes foi morrendo com o espaço e o tempo que passaram. E o filho que morreu e saiu. O filho que foi viver e foi morrendo. Que morreu quando morreu por uma vida. E morto esteve meses. Meses que foi morrendo; pelo gargalo, pelos dias, pelas noites, foi morrendo. E morto levou algumas mortes consigo. Foi morrendo e nasceu de novo. Nasceu novo, depois da morte. Nasceu-lhe nos olhos e no sorriso. Nasceu-lhe nos olhos negros. Olhos negros que matam. Nasceu de novo e vai morrendo com os dias. Morrem no beijo. Vão morrendo.
A morte é isso; são os dias que passam. Os dias que acabam em noites. E as noites inteiras que acabam nos dias. A morte é aquela lágrima que cai sem se ver. É a resposta que não chega. A morte é as palavras que não se dizem. As palavras que não se ouvem. A morte é as palavras que se ouviram. É a voz sorrateira na nuca que invade e questiona, sem nunca haver resposta. A morte. Sente-se. Sabe-se. E como morro.
A morte é todos os dias. Morre-se ao viver. Morre-se a viver. Sempre. A morte é uma pergunta. Quantas mortes pode um homem morrer, pergunto.

Submited by

Miércoles, Marzo 17, 2010 - 19:24

Ministério da Poesia :

Sin votos aún

Moon_T

Imagen de Moon_T
Desconectado
Título: Membro
Last seen: Hace 13 años 38 semanas
Integró: 10/10/2009
Posts:
Points: 320

Add comment

Inicie sesión para enviar comentarios

other contents of Moon_T

Tema Título Respuestas Lecturas Último envíoordenar por icono Idioma
Poesia/Pensamientos Desaperta o colarinho 0 2.282 11/25/2011 - 21:20 Portuguese
Fotos/Perfil 1925 0 3.283 11/23/2010 - 23:41 Portuguese
Ministério da Poesia/Meditación morte 0 4.080 11/19/2010 - 18:27 Portuguese
Ministério da Poesia/General Eu 0 4.289 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Gótico réplicas 0 3.327 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Gótico Mimica 0 4.144 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Gótico Hoje não me apetece sorrir 0 3.384 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Gótico Insónia 0 2.875 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/General vivo 0 3.944 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Erótico Vestir-te 0 4.084 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Erótico deitada 0 4.026 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Erótico Chuva 0 3.861 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Gótico Insano por mais um dia 0 3.059 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Gótico Crepusculo de pesadelo 0 3.103 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Pasión Sabes-me bem 0 3.602 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Amor Choro Amo-te 0 3.130 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Aforismo nao me reconheço 0 3.590 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Amor sinto a tua ausencia 0 3.921 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/General solta as amarras 0 3.274 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Amor trago-te na sombra 0 2.972 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Amistad um dia, amigo 0 3.472 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Amor Fala-me 0 3.543 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Pasión Desespero 0 3.349 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/General Lembro-me 0 3.690 11/19/2010 - 18:25 Portuguese
Ministério da Poesia/Pasión Odores... 0 4.203 11/19/2010 - 18:25 Portuguese