Rostos e Livros


 

- Pomba! Se não fosse nada, por que tu apagou (sic) tão rápido?
- Viu! Teve vinte (20) curtidas e eu nem quero ter tantos amigos...
- E teve sete (7) comentários está vendo?

Não é uma imagem difícil de ser pensada: noite de lua cheia, uma fogueira, a caça abatida sobre as brasas, crianças correndo, homens olhando as mulheres alheias, mulheres flertando com homens alheios, desejos sem disfarces, iras descontroladas, um golpe aqui, outro acolá, maledicências, picuinhas, invejas, rancores e o resto do pacote que formata a estranha espécie dos “bípedes sem plumas”. Ali, a “proto-praça”. Sem coreto, porque a música ainda não existia. E sem igreja, porque deus ainda não havia sido inventado.
Mas como o “bípede” não parou de fingir que evoluía, logo a “proto-praça” perdeu a sua “Face” primitiva e ganhou os primeiros “Books”, nas intelectualmente sofisticadas ágoras helênicas, já com coretos de música Orfeônicas e belos templos para os estilizados deuses, que há pouco haviam sido inventados. Belíssimas ágoras, onde se praticava a maledicência, a inveja, os rancores, as hipocrisias (pois já não era de bom-tom ser sincero), os flertes, as traições e o restante do pacote que caracteriza a espécie dos “bípedes sem plumas”.
Mas tão previsível como o nascer do Sol, digo Apolo, são as crises que acompanham a espécie e, então, por medida de economia, os próprios deuses foram reduzidos a apenas um (com três Faces, diga-se). Crise e sombra da Idade Média que custaram a passar, mas que passaram e, então, os “bípedes sem plumas” ergueram “As Praças das Armas”, sem coreto, mas com grandes Catedrais, pois embora tivesse sido reduzido a apenas um, o deus restante aumentara exponencialmente de tamanho. E foi em Seu nome que arderam as Sagradas Fogueiras das Santas Inquisições, enquanto os membros da espécie praticavam a maledicência, os rancores, as traições, os flertes e o restante do pacote, (devidamente regulamentado pelas Santas Leis Eclesiásticas – compiladas em único Book) que formata a essência dos estranhos “Bípedes”.
Verdade, que no fim, alguns atrevidos ousaram concorrer com as Sacras Chamas que alimentavam o fogo do Índex ao qual se lançavam as palavras nefastas e criaram o Movimento (Opa, olha aí Rio de Janeiro) Iluminista, pois acreditavam que as “Luzes da Razão” iluminariam os bípedes – kkkkkkkk. Também foram para a Fogueira Santa, kkkkkkkk.
Mas, como se sabe, as palavras são perigosas mesmo e o diabo (Ops! M. não quer que eu diga diabo) é que as danadas acabaram revelando o seu perigo e os bípedes aprimoraram o seu simulacro de evolução. Principalmente, em sua capacidade de se matarem mutuamente. Porém, enquanto não estavam cumprindo a nobre tarefa de exterminar outrem em nome de Deus, do Rei e doutras besteiras, os bípedes frequentavam a praças e, nelas, praticavam as hipocrisias, as falsas religiosidades, as traiçoeiras inimizades e o restante do pacote dos “bípedes sem plumas”, mas, agora, fardados, penteados, maquiados e, especialmente, fantasiados de ricos, poderosos, importantes, sexy etc.
O diabo (Ops, o Inimigo) é que as fardas e as novas capacidades letais, da soberana civilização dos bípedes causou tanta morte, horror e tristeza (Ops, depressão), que aos pobres coitados restou um medo crônico que, ao cabo, levou-os a não irem mais à Praça.
O diabo (Ops, o Destruidor) é que sem a praça, onde o pobre bípede poderia praticar a maledicência, a hipocrisia, a mentira, a ostentação, e o restante do pacote que desde “a noite dos tempos” caracteriza a sua espécie?

- Ora, então que não houvesse mais essas práticas nefandas...
- Mas como, Doutor, isso seria possível, se essa é a sua essência?
- Sim! Caramba! E agora?
- Então, eu ouvi dizer que um rapaz do “Grande Irmão do Norte” inventou um tipo de Praça que dispensa a nossa presença física, mas preserva a nossa essência...
- E como se chama essa nova Praça?
- Eu acho que é algo como “Rostos e Livros”, mas não sei se posso traduzir “Facebook” dessa maneira...
- Também não sei. E, na verdade, nem consigo entender o que quer dizer “Livros”...

Lettre la Art et la Culture
Enviado por Lettre la Art et la Culture em 18/02/2016
Alterado em 18/02/2016

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor e o link para o site "www.fabiorenatovillela.com"). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Submited by

Thursday, February 18, 2016 - 20:14

Prosas :

No votes yet

fabiovillela

fabiovillela's picture
Offline
Title: Moderador Poesia
Last seen: 3 years 35 weeks ago
Joined: 05/07/2009
Posts:
Points: 6158

Add comment

Login to post comments

other contents of fabiovillela

Topic Title Replies Views Last Postsort icon Language
Poesia/Love Ausentes 0 922 01/05/2015 - 01:04 Portuguese
Poesia/Love O Gim e o Adeus (2015) 0 957 12/31/2014 - 15:02 Portuguese
Prosas/Others Descartes e o Racionalismo - Parte XII - A Metafísica 0 1.039 12/29/2014 - 20:06 Portuguese
Poesia/General Gauche 0 665 12/26/2014 - 19:50 Portuguese
Prosas/Others Descartes e o Racionalismo - Parte XI - O Método 0 609 12/24/2014 - 21:01 Portuguese
Prosas/Others Descartes e o Racionalismo - Parte X - A Geometria Analitica 0 1.211 12/24/2014 - 20:57 Portuguese
Poesia/Love Quietude 0 531 12/21/2014 - 22:03 Portuguese
Prosas/Others Descartes e o Racionalismo - Parte IX - O primeiro filósofo moderno - Cogito Ergo Sun 0 914 12/20/2014 - 21:29 Portuguese
Prosas/Others Descartes e o Racionalismo - Parte VIII - A época e o ideário básico 0 815 12/20/2014 - 21:25 Portuguese
Prosas/Contos Farol de Xenon 0 1.688 12/20/2014 - 01:40 Portuguese
Prosas/Others Descartes e o Racionalismo - Parte VII - Notas Biográficas 0 688 12/19/2014 - 13:56 Portuguese
Poesia/Meditation Sombras 0 937 12/18/2014 - 00:21 Portuguese
Prosas/Others Descartes e o Racionalismo - Parte VI - Preâmbulo e índice de obras 0 1.032 12/17/2014 - 14:07 Portuguese
Prosas/Drama Nini e a Valsa 0 1.169 12/17/2014 - 01:56 Portuguese
Poesia/Love As brisas e as rendas 0 658 12/15/2014 - 22:08 Portuguese
Prosas/Others Descartes e o Racionalismo - os Tipos de Razão Filosófica 0 590 12/13/2014 - 19:53 Portuguese
Poesia/Love Desencontros 0 403 12/10/2014 - 20:41 Portuguese
Poesia/Love Navegante 0 1.361 12/05/2014 - 01:21 Portuguese
Poesia/Love Evoé 0 668 12/03/2014 - 01:17 Portuguese
Prosas/Others Descartes e o Racionalismo - Parte IV - o Racionalismo 0 694 12/01/2014 - 15:21 Portuguese
Poesia/Love A Face 0 804 11/30/2014 - 00:20 Portuguese
Prosas/Others Descartes e o Racionalismo - Parte III - o Racionalismo - continuação 0 867 11/27/2014 - 15:33 Portuguese
Prosas/Others Descartes e o Racionalismo - Parte II - o Racionalismo 0 986 11/26/2014 - 15:03 Portuguese
Poesia/Love A Dança 0 729 11/23/2014 - 19:28 Portuguese
Prosas/Others Descartes e o Racionalismo - Preâmbulo (Apêndice: a Razão) 0 479 11/22/2014 - 21:56 Portuguese