GAVETA COM MAR DENTRO
Acordo, é domingo de manhã e, por entre as frestas do estore cinzento, a luz indicia um dia solarengo anunciando a primavera que já não tardará a chegar.
Ainda é cedo e, como é habitual, todos ainda dormem, recuperando de uma semana mais ou menos cansativa, entregando-me todo o silêncio da nossa casa, convidando-me, assim, à serenidade e contemplação das coisas que o atarefado dia-a-dia teima em tentar esconder.
Sinto que estou entregue a mim mesmo e, com isso, cresce em mim a vontade de viver o que sou e reviver o que fui.
Fito aquela gaveta do escritório que não abro faz muito tempo, talvez anos. Tento lembrar-me do que ela contém, o que nela está guardado e sinto um desejo repentino de a abrir, quase tão grande como o desejo de uma criança ao receber um presente de Natal. Decido avançar.
A gaveta mostra-se pesada, talvez seja um prenúncio daquilo que ela carrega, convidando-me a encontrar nela o que vivi e, sobretudo, o que não cheguei a viver.
Apesar de lenta e pesada, a gaveta abre-se criando em mim, de seguida, a amarga incerteza do próximo passo.
Estaria eu mesmo preparado para aquilo?
Estaria o meu barco já treinado para se fazer, destemidamente, àquele mar agitado?
Quereriam os meus olhos voltar a chorar as lágrimas salgadas daquele mar?
Como um murmúrio, ouço a voz da alma a dizer sim, faz-te ao mar, e a do coração a dizer não, olha que as ondas ainda parecem grandes demais e o cais ainda está longe.
Observo o conteúdo da gaveta e, quase sem o remexer, um caderno ao fundo, de cor esverdeada, chama-me a atenção e parece querer pedir-me que lhe toque, que lhe dê atenção, que lhe devolva vida. Sinto o seu apelo e o caderno está agora livre, quase intacto, apenas seguro pelas minhas mãos. Reconheço-o.
O meu coração bate agora mais rápido. Volto a hesitar, resisto.
As ondas do mar ainda me dizem para não entrar naquele barco.
Respiro fundo, acalmando o bater do coração, e aceito o risco de voltar a desfolhar aquele anuário escolar.
A sua capa lisa recorda-me a tua pele e o teu rosto. Não sei se tive tempo de te dizer que eu era feliz mesmo só podendo olhar-te.
Não preciso de procurar por aquilo que quero rever, talvez por tanto a ter procurado outrora, a página com a fotografia daquela turma está marcada, marcada pelo tempo e pelas vezes sem conta que os meus dedos a procuraram. Também não preciso de procurar onde estás naquela fotografia porque muito da minha memória ficou ali e o teu rosto é intemporal. Tu és esta aqui, a mais bonita para mim.
Quis tanto que fosses minha e só te tive naquele dia, no último dia de aulas. A minha espera tinha chegado ao fim, tu estavas ali, mesmo à minha frente, só nós os dois naquele corredor deserto, e o teu beijo chegou, intenso e quente. Depois, quando me olhaste nos olhos, percebeste que o brilho dos meus já não te iluminava como antes, o meu coração já não batia com a mesma intensidade e o fogo já não ardia descontroladamente. Ainda sinto as tuas mãos agarrarem a minha roupa junto ao peito e a tua pergunta, curta e fria, ainda ressoa na minha mente:
- Ainda me amas?
Naquele momento fiquei inerte, petrificado e gelado. Senti que não havia fuga possível, por momentos fiquei incapaz de pronunciar qualquer palavra.
- O que sentes por mim? Questionaste quase de seguida, na falta de uma resposta minha à tua primeira pergunta.
Depois, respirei fundo e, apesar de querer tanto poder dizer-te "Amo-te ainda mais do que antes", foi o coração que falou, já cansado:
- Carinho. O que sinto por ti, agora, é carinho.
Senti as tuas mãos, lentamente, largarem-me a roupa junto ao peito e, à medida que te ias afastando de mim, olhando para o outro lado do corredor deserto, revelaste:
- Eu sabia que um dia iria amar-te muito e tu já não me amarias mais...
Ao fechar o caderno esverdeado, lembro-me de que passei por ti há um tempo atrás.
Quero dizer-te que estás ainda mais bonita do que antes.
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