Dentes brancos cravados no tronco...
O tronco da figueira era irregular,
cada nó, de madeira centenária,
servira de açaime a todos os castigados que a tinham abraçado, sem forças...
Escorregando por ela como invertebrados cansados,
entoando uma ária de ópera mórbida qualquer,
entre graves, agudos e urros de animal...
Nunca perguntaram à árvore se assentia em ser carrasco passivo,
serviam-se do seu corpo como quem se serve de uma mulher e nem lhe pergunta o nome...
A árvore assistia, dia após dia, chorando folhas e sentindo a dor dos condenados...
Cruzavam as mãos deles, por trás dela,
em corda de sisal,
deixando-lhes as costas descobertas para receberem as feridas abertas...
Os corpos eram da cor da noite, mas vestiam-se de magma,
como vulcão em erupção, enquanto o chicote dançava...
As lágrimas regavam-lhe as raízes como aguaceiros infelizes...
Alguns caiam de joelhos, como padres velhos a rezar, sem acreditar em nada....
Outros, aguentavam de pé,
eram crentes...
Acreditavam num Deus que os fizeram de cor diferente...
Recebiam o castigo, sem odiar,
sentindo o sangue a escorrer pelas costas abaixo até às pernas arqueadas,
fazendo força nos dedos dos pés e rangendo os dentes,
mais brancos que os dos senhores,
que eram os donos dos escravos...
Esses tinham fé e não costumavam morrer abraçados à árvore,
que tremia com eles,
que sofria e chorava com eles,
que pedia com eles,
dia após dia,
noite após noite,
que terminasse o açoite...
Que se cansasse o braço branco do chicote que odiava a cor da noite...
Inês Dunas
in "Desejo a Marte, tão perto"
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Poesia :
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Comments
Re: Dentes brancos cravados no tronco...
excelente alegoria, com um poder interventivo enorme
Adoro ler-te e saber que a tua imaginação não tem limites
bjos
Re: Dentes brancos cravados no tronco...
Os corpos eram da cor da noite, mas vestiam-se de magma,
como vulcão em erupção, enquanto o chicote dançava...
Espectacular, espero que não passe de uma chicotada poética!!!
:-)
Re: Dentes brancos cravados no tronco...
É sempre bom ler-te amiga, nem que seja com este maravilhoso poema que me deixa triste...
Beijinho
Carla
Re: Dentes brancos cravados no tronco...
que tremia com eles,
que sofria e chorava com eles,
que pedia com eles,
dia após dia,
noite após noite,
que terminasse o açoite...
Que se cansasse o braço branco do chicote que odiava a cor da noite...
Que lindo poema Inês, mais uma vez parabéns pelo+poema.
Um enorme beijo melo
Re: Dentes brancos cravados no tronco...
Triste mensagem a tua mas reallidade nos tempos de outrora infelizmente.
Neste preciso momento lembrei-me da novela "Escrava Isaura"
em que "Lioncio" mandava espancar a escravidão sempre sem razão. muita gente chorava de verdade apesar de saber que era novela!
Tema criativo o seu acho interessante quando personifica a àrvore como testemunha dos maus tratos.
bjo :-)
Re: Dentes brancos cravados no tronco...
LINDÍSSIMO POEMA, MAS PORÉM TRISTE, COM FORAM E AINDA PODEM SER AS TRISTEZAS DAS GERAÇÕES DE ESCRAVOS NEGROS ONDE ERAM CATIVOS, E QUE SOFRERAM AS AGRURAS E AÇOITES DOS PRETENSOS DONOS...
Meus parabéns, e minhas desculpas pelo que fizeram nossos antepassados, com nossos irmãos negros!
Atenciosamente, meus parabéns,
Marne