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Bateu a meia-noite no relógio de parede (IV)

 
É meia noite segundo o relógio de parede a que dou corda todos os dias e me esqueço de limpar o pó que se vai acumulando noite após noite mas sabes que acho que isso lhe dá aquele toque especial de relógio antigo impenetrável e intocável como gostava eu de ser assim objecto autónomo apenas dependente de alguém uma vez por dia aquele que estava ali para ser admirado horas sem fim tic tac pong aquele que nunca ninguém é capaz de ignorar à força da palavra que não diz sussurra e embala embala atordoando e desperta desperta-nos de hora em hora ponggg.
 
É meia noite e tenho algo muito importante para te contar, não sei como ou por onde começar, secalhar fico-me assim por uma frase certeira e retiro-me ou não, espero porque o que te quero dizer é que ainda te espero sem esperar ou espero entretendo-me ou achando que já não espero mais mas espero, entendes? O que te quero dizer é que é meia noite e faz frio lá fora chove a cântaros torrentes de água e gelo e o vento ruge como os trovões sim está uma noite linda é lua cheia de tempestade. Há relâmpagos também. Lembras-te daquela noite nós os dois a chuva a bater no terraço chocolate quente a aquecer o frio nas mãos e nós nos braços um do outro enroscados no sofá a aquecermos o coração quase a dormitar flutuações de calma a contrastar o tempo os dias que se seguiram àquelas noites, as do depois.
 
É meia noite e o que te quero dizer é que encontrei um outro coração um outro abraço de outros braços enroscados em ternura e suspiros de respirações suspensas de olhares tacteados corpo a corpo pele na pele a fundir desejos e paixões. Mas espera não esperes não digas mas diz qualquer coisa. Sei que vais calar a palavra pensar fugir remorder as memórias e pensar esperar calar e rematar com um gosto de ti achando que isso basta. Basta? Quero acreditar que já não basta bastar-me singelas frases feitas que nem sei se sentes se desmentes ou mentes nos ecos que te assombram. Gosto. Gostei de migalhas a negar que gostava.

Ninguém papa migalhas só os pássaros.

Tenho asas mas não voo nunca voei mas sabes um sonho voar como eles não voar por voar nem mesmo num balão de ar quente nem nada de radical ou romântico ou banal não. Apenas voar eu só eu e o mundo eu e o céu eu a rasgar nuvens formatadas ao vento. Mas não voo. As migalhas não me alimentam sabes disso eu disse-te tu riste-te e voltaste a rir. Sabias que era o tudo o teu tudo para mim nada mas nessa altura eu ainda não sabia. Não sabia que te ias não sabia que me trairias não sabia que te esconderias que fugirias que afinal telefones sem rede ou caídos no esquecimento eram isso mesmo e carros perdidos algures por entre a bruma a caruma e a espuma do nevoeiro sem rumo vinham de rumo certo iam para destino certo na companhia de um copo de três mais um talvez.

Existem copos de quatro?

 
É meia noite e estou cansada corri cai levantei-me corri sentei as dúvidas ao colo e pesei na balança que pesa sentimentos vs acções e estou cansada tão cansada de correr. Parei por uns segundos não parei parou o bater do coração a fazer-se deixar de ouvir e a outra a outra trocada ignorada desprezada a ecoar como numa sala de espelhos partidos que reflectem distorções de imagens fragmentadas em sequência a enlouquecer os sentidos.

Levantei-me.

O vidro à minha frente reflectiu a minha imagem. Era a dor a dizer olá. Disse-lhe adeus. Desde aí disse-lhe adeus e voltei a mim mesma juntei as peças que tinham caído no chão os cabelos desgrenhados a desenharem altares de adorações castas idolatrações estúpidas de outrora e dei um passo depois outro e a seguir outro. Percebi que não se cai por cair nem se corre para fugir ou se foge para mentir ou se mente para sorrir nem se sorri para ficar ou se fica para amar. Parte-se sem se partir de dentro de nós nada de cacos nada de farrapos ou ilusões ou escapadelas de surra a omitir razões. Nada disso. Parte-se apenas rumo ao sinal mais próximo que diga
 

Chegada.
 
E é isso é meia noite e lembrei-me que tinha algo para te dizer sem rodeios a rodear consciente as palavras mas só porque estou cansada. Cheguei hoje ou ontem não sei e estou cansada outra vez. Corri a parar os suspiros no peito as cantigas de repeat a fazerem lembrar noites de sofá enroscados de chocolate quente em tempestades que param lá fora a seguir a noites de insónia e dias que se seguem escuros no frio de luas cheias que dormem em paz.

É meia noite diz-me o relógio empoeirado na parede.

Autoria de InesG

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sexta-feira, novembro 2, 2012 - 03:16

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