A Jóia - Ato Primeiro - Cena IX

Cena IX

Carvalho e Valentina

(Valentina está pronta para sair. Tem os olhos vermelhos. Dirige-se à secretária e guarda em uma bolsa que traz na mão as notas de banco, que tira da gaveta sem que Carvalho veja.)

Carvalho - Menina, dos calcanhares

olha que não me levanto

nem mesmo a cacete, enquanto

teu perdão me não lançares!

(Valentina acaba de guardar o dinheiro e desce à cena, fingindo que chora, mas rindo-se à socapa. À parte.)

Coitadinha! que lamúria!

Valentina - Sei que não tenho o direito

de exigir nenhum respeito,

de perdoar uma injúria...

Vocês têm razão: enxerguem

na mulher que cai somente

a meretriz impudente,

que nem as lágrimas erguem.

Tem graça o perdão! De rastros,

sou eu que devo alcançá-lo!

(Ajoelha-se também. Ficam ajoelhados defronte um do outro.)

Sou perdida e quis amá-lo!

Sou lama: quis ir aos astros!

Carvalho - Um astro és! És minha lua,

és minha lua querida!

Valentina - Sua sombra, refletida

num charco imundo da rua,

serei...

(Ergue-se e vai sentar-se na poltrona.)

Meu pobre passado!

Tu onde estás? onde fostes?

- Dá licença que me encoste

ao seu capote? - Obrigado.

Eu tive a flor dos maridos...

Que quer? Não havia meio

de amá-lo! Um dia deixei-o.

deu um tiro nos ouvidos!

Como mariposa inquieta,

pousei aqui e ali...

Amar jamais consegui...

mas encontrei-te... poeta!...

(Vai arrebatadamente colocar-se outra vez de joelhos, defronte de Carvalho.)

Carvalho (Admirado.) - Poeta!...

Valentina - Poeta, repito!

A ti não parecia;

mas tinhas tanta poesia!...

Escuta: não és bonito...

já não és novo, sequer...

És calvo, tens nariz grande;

mas nisso mesmo se expande

meu coração de mulher.

Não sou vulgar... amo o horrível,

e és horrivelmente belo!

Ao teu carão amarelo

meu coração foi sensível...

Um instante me pareceu

- mas, ai de mim, me enganara -

que tu, com tão feia cara,

deverias ser só meu!

(Erguendo-se.) Sim, o velho mundo espante-se

e belas razões deduza:

seis contos você recusa

a tanto afeto! - Levante-se!

Carvalho (Erguendo-se.) - És um anjo!

Valentina - E você é...

Carvalho - Teu escravo!

Valentina - É um verdugo!

Entretanto, Victor Hugo

disse: Oh! n’insullez jamais...

Carvalho - Então? Estou perdoado?

Valentina - Estás, que tudo se esquece.

(Vendo que Carvalho limpa os olhos.)

Choraste?

Carvalho - Se te parece!

Falas como um advogado!

Onde é que as bichas se vendem?

Vou buscá-las.

Valentina (Mudando inteiramente de tom.) - Meu amigo,

o ouvires vem ter contigo

e dois cá se entendem.

Carvalho - Quem o manda?

Valentina - Eu.

Carvalho - Deveras?

Valentina - Eu fiquei de lá ir. (À parte.) Como

tenho de ir ao banco, tomo

um carro e vou lá. (Alto.) Esperas?

Carvalho - Espero.

Valentina (Beijando-o.) - Adeus.

Carvalho - Sedutora!

(Saída falsa de Valentina, pela esquerda, segundo plano.)

Se eu não puder arredar-me,

conto que hei de desforrar-me

pela colheita vindoura.

(Senta-se no sofá.)

Valentina (Voltando.) - Outra bicota. (Beija-o.) Mais duas!

A chama do amor me abrasa!

Ainda não saí de casa,

já tenho saudades tuas!

(Vai saindo e para.) Não queres ler um pouquinho?

Carvalho - Quero, sim.

Valentina - Olha, aqui tens...

(Dá-lhe o Mosquito e dirige-se para a porta da esquerda, segundo plano.)

Carvalho (Deitando-se.) - Enquanto tu vai e vens,

eu fico lendo o Mosquito.

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Wednesday, April 15, 2009 - 23:37

Poesia Consagrada :

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