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O Encantador da Lua

Estou inquieta na minha aparente imobilidade.
Uma estátua pela água e pelo vento esculpida, que se inquieta e que sonha com o movimento que não tem...
Na verdade, desde que saltei do bloco disforme da minha essência, material, vivi uma existência tranquila!
Longe do lugar da minha criação, num recanto ajardinado, passei os meus dias observando a vida sem me deixar perturbar pelo que via e as noites ouvindo sem que o som fizesse eco dentro de mim.
O Tempo, sempre apressado, não tinha qualquer importância e o meu canto, mesmo em noites desertas, não era um lugar solitário...
Tenho por companhia um banco de jardim e a hera que cresce e tece um agasalho improvisado. O banco conhece o movimento diário de estranhos que se sentam sem pedir licença e falam como se não pudesse ouvir. O banco não só ouve, como conta e a hera, que cobre todo o parque, encarrega-se de segredar todas as conversas de todos os bancos.
Há muito que ouvia falar de um ser misterioso, alguém de quem não se conheciam palavras, mas que todos tinham, em algum momento, escutado. Confesso que nunca dei muita importância a essas histórias e que não partilhei do mesmo entusiasmo com que falavam do "Encantador da Lua". Encantador era o adjectivo que reunia o maior consenso e da lua porque este estranho, aparentemente, só visitava o parque em noites de lua cheia.
Certa noite, uns passos silenciaram as cigarras e o meu recanto encheu-se de silenciosos e expectantes espectadores.
O vulto sem rosto nada disse quando se sentou no banco do meu jardim. Ali ficou alguns longos minutos, o tempo suficiente para até o Tempo abrandar... Depois, como se soubesse esperado, ergueu-se e tocou!
Movimento...
Ondulação...
Brilho...
Todos pareciam suspensos e cativos.
O próprio céu derretia-se e as nuvens dissipavam banhando-o com o luar.
Eu não fiquei indiferente, procurei ver e ouvir como quem quer sentir. Perturbei-me com a intensidade sonora e senti... Emoção!?
Olhei, como quem quer ver...
Primeiro vi o arco, depois as mãos e a seguir um rosto que tocava com os olhos centrados no coração.
Sorri. Fechado no seu mundo de música, aquele melódico e encantador vibrar trespassava todos os meus poros e libertava-me da água absorvida e nunca antes notada. Deveria pesar porque me senti mais leve...
Deixei-me ficar a ouvir até que o céu me pareceu mais brilhante e mais próximo. O Encantador da Lua olhava-me com os seus olhos de prata estelar e eu senti-o pulsar dentro de mim, enquanto me deixava levar por um sono profundo.
Não parecia dormir porque flutuava... Foi então que vi os ponteiros suspensos de um relógio, a luz de cem velas lunares, um chão pintado de folhagem vermelha, um prado verdejante e um castelo de onde partiam e regressavam, como uma nuvem colorida, aves de todas as cores.
Na torre do castelo, o Encantador da Lua tocava o seu violino e as notas vertiam como numa cascata do arco-íris, pintando tudo ao seu redor.
Dancei! Rodopiei num tabuleiro de aguarelas pintando também o meu caminho, olhos fechados, coração palpitante, alma leve... Sabia o caminho de cor.
Já no castelo, encostei o ouvido às pedras, acariciei-lhes as arestas e murmurei, sem saber porque o fazia… Voltei!
A gigante porta de carvalho abriu-se e ao entrar outras portas abriam-se sem que lhes tocasse, guiavam-me e o meu coração dizia para me deixar guiar.
À torre subi sem qualquer esforço, estremecendo ao tocar nas pedras das suas paredes cobertas pela hera. Estremecia porque sentia como se tocasse em mim... Fui feita daquelas pedras… Existi!
Já existi antes de ser estátua, antes de ser pedra. Amei e adormeci vítima de um encanto, fruto da inveja e da cobiça.
Aquela música – inspirei como se a respirasse – foi escrita para mim... Tinha o dom de me fazer lembrar, ainda que não quebrasse o feitiço.
Ao aproximar-me do Encantador da Lua senti um calor diferente das tardes de Verão no meu recanto florido. Era como se o sol estivesse dentro de mim e ao vê-lo, sorria mil raios de luz. Recordava…
Do alto da torre, olhei para o jardim colorido que se estendia no horizonte, sei que corri por ali, rindo. Na sombra de um velho carvalho, numa cama de pétalas, lábios de cereja encontraram uma boca de pêssego, cabelos de ébano deslizaram por uma escova de dedos, ventres de um rosa suave e de um puro jasmim entrelaçaram-se como trepadeiras… A lua cresceu intensa e cheia mimou os amantes.
Aos primeiros raios da aurora, o acordar abrupto e a varinha macabra ditaram os termos do castigo. Era a noiva prometida que não quebrara a promessa feita pelo coração e por não renegar a tão forte sentimento, em pedra a transformaram e da pedra construíram a torre carcereira.
Juntos, mas separados para sempre… Um condenado à eternidade, o outro ao esquecimento.
Agora vejo-o como ele me vê, mas antes que lhe pudesse dizer, quebra-se o encanto da lua e regresso ao meu recanto, presa nesta forma de pedra que sente... Uma estátua pela água e pelo vento esculpida, que se inquieta e que sonha com o movimento que não tem… Até à próxima lua cheia...

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quarta-feira, junho 1, 2011 - 23:33

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Ema Moura

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